Saúde & Bem-estar

Seu coração está em risco? Entenda como o sofrimento emocional afeta o organismo

Análise com 85 mil participantes revela que impacto vai além do estilo de vida e envolve mecanismos inflamatórios e cerebrais

A relação entre a saúde mental e o bem-estar físico ganhou novos contornos com a publicação de um estudo recente na revista científica *Circulation: Cardiovascular Imaging*. A pesquisa, realizada com dados de mais de 85 mil participantes do Mass General Brigham Biobank, demonstrou que condições como o quadro emocional delicado e a tensão emocional não afetam o coração apenas por meio de mudanças no estilo de vida, mas também através de mecanismos biológicos diretos. Durante o acompanhamento de pouco mais de três anos, cerca de 3,6% dos voluntários registraram eventos cardiovasculares adversos, incluindo infarto e acidente vascular cerebral.

Os dados indicam que indivíduos diagnosticados com um quadro emocional delicado apresentaram uma probabilidade significativamente maior de enfrentar esses problemas, risco que se elevou quando a condição estava associada à tensão emocional. Essa constatação sugere a existência de um grupo de pacientes com vulnerabilidade acentuada, exigindo monitoramento clínico mais rigoroso. O psiquiatra Elton Kanomata, do Hospital Israelita Albert Einstein, reforça a necessidade de cuidado integrado. “Ao identificar múltiplas comorbidades psiquiátricas, a atenção à saúde cardiovascular deve ser redobrada, com possível encaminhamento para avaliação cardiológica e reforço das mudanças no estilo de vida”, afirma o especialista.

Mecanismos biológicos e cerebrais

Para compreender as raízes fisiológicas dessa associação, parte dos voluntários foi submetida a exames de imagem avançados, como a tomografia por emissão de pósitrons (PET/TC). As análises revelaram que pessoas com histórico de tensão emocional ou quadro emocional delicado exibiam maior atividade na amígdala, região cerebral responsável pelo processamento do medo e do estresse. A hiperativação dessa estrutura pode estimular o sistema nervoso autônomo de maneira persistente. Segundo Kanomata, “Essa ativação prolongada pode, ao longo do tempo, afetar o funcionamento do coração e dos vasos sanguíneos”, mantendo o organismo em constante estado de alerta.

Além das alterações cerebrais, os pesquisadores notaram uma menor variabilidade da frequência cardíaca nesses pacientes, o que sinaliza uma dificuldade do coração em se adaptar às demandas do corpo. Outro marcador importante identificado foi a elevação da proteína C-reativa (PCR), indicativo de inflamação sistêmica no sangue. A presença desses fatores biológicos cria um cenário propício para o desenvolvimento de doenças. O médico explica a gravidade dessa condição fisiológica: “Isso é associado a maior risco cardiovascular, pois reflete menor adaptação ao estresse e pior regulação do sistema cardíaco”.

Fatores de risco associados

Embora os mecanismos biológicos sejam centrais na nova descoberta, eles atuam em conjunto com comportamentos nocivos à saúde. O estudo esclarece como as alterações fisiológicas se entrelaçam com o estilo de vida, criando um ciclo prejudicial. O tratamento precoce das condições mentais surge, portanto, como uma estratégia vital de prevenção cardiológica. Kanomata detalha essa complexa interação: “Elas podem provocar alterações hormonais, processos pró-inflamatórios e desequilíbrios no sistema de resposta ao estresse , além de favorecer hábitos como redução de atividade física e aumento de consumo de alimentos pouco saudáveis, o que aumenta a suscetibilidade a eventos cardíacos”.

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