Cogumelos alucinógenos superam adesivos para parar de fumar em teste
Ensaio clínico publicado na JAMA Network Open indica que substância teve taxa de sucesso seis vezes maior que terapia convencional em voluntários.
Uma nova investigação científica, divulgada recentemente na publicação JAMA Network Open, da American Medical Association, trouxe à tona dados relevantes sobre o potencial terapêutico da psilocibina no combate à dependência de nicotina. A substância, que é o princípio ativo encontrado em cogumelos do gênero *Psilocybe*, foi objeto de um estudo comparativo com métodos tradicionais de cessação do tabagismo. A pesquisa sugere que a administração controlada deste composto, em conjunto com acompanhamento psicológico, pode oferecer resultados superiores aos tratamentos convencionais baseados apenas em reposição de nicotina para indivíduos que desejam abandonar o cigarro.
O estudo foi conduzido por cientistas da Universidade Johns Hopkins, localizada em Maryland, nos Estados Unidos. A metodologia aplicada confrontou a eficácia de uma dose elevada de psilocibina, definida pelos pesquisadores como 30mg para cada 70kg de peso corporal, contra o protocolo padrão de adesivos de nicotina utilizados por um período de oito a dez semanas. Para garantir a integridade do processo e o suporte aos participantes, ambos os grupos receberam acompanhamento por meio de terapia cognitivo-comportamental durante 13 semanas, visando auxiliar na mudança de hábitos e no controle da dependência.
Eficácia superior da psilocibina
O ensaio clínico contou com a participação inicial de 82 adultos, sendo que 60 completaram o ciclo total de seis meses de observação proposto pelos organizadores. A análise dos dados finais revelou uma diferença significativa entre os grupos: os voluntários que receberam a psilocibina obtiveram uma taxa de sucesso seis vezes maior na interrupção do tabagismo em comparação aos que utilizaram apenas os adesivos. Entre os que foram medicados com a substância, 17 conseguiram manter a abstinência total ao longo do semestre, enquanto apenas quatro indivíduos do grupo submetido ao tratamento com adesivos alcançaram o mesmo resultado.
A relevância desses achados é amplificada pelo impacto severo que o cigarro causa na saúde pública global e nacional. Dados do Instituto de Efetividade Clínica e Sanitária (IECS) ilustram a gravidade da situação no país, indicando que o tabagismo “mata, só no Brasil, 477 pessoas por dia”. Diante de estatísticas que demonstram um alto índice de perdas humanas relacionadas ao consumo de tabaco, a comunidade científica busca incessantemente por alternativas terapêuticas que apresentem maior eficácia do que as opções atualmente disponíveis no mercado farmacêutico.
Limitações e perfil dos participantes
Apesar dos resultados promissores, os autores do trabalho enfatizam a necessidade de cautela na interpretação dos dados. O estudo, em sua conclusão, ressalta que “os dados partem de uma amostra pequena e pouco diversa”. A demografia dos voluntários mostrou-se homogênea, visto que quase 90% dos 82 participantes eram brancos e possuíam alto nível de escolaridade. Além disso, 64% relataram uso prévio de psicodélicos, um número consideravelmente superior aos 13% observados na população em geral, o que indica a necessidade de novas pesquisas para validar a eficácia do tratamento em grupos mais amplos e heterogêneos.



