O hábito simples antes de dormir que pode transformar o cérebro do seu filho
Estudo com crianças de 6 a 8 anos indica que ler livros de ficção, com ou sem pausas reflexivas, favorece habilidades sociais e o pensamento criativo.
Pesquisas recentes têm apontado um declínio nas habilidades de empatia e criatividade entre o público jovem, fenômeno que especialistas associam a alterações no estilo de vida contemporâneo, mudanças nos modelos educacionais e, sobretudo, ao aumento expressivo do uso de tecnologias digitais. Nesse cenário, um novo estudo publicado na revista científica PLOS One apresenta uma alternativa acessível e eficaz para reverter esse quadro: a leitura de livros. A investigação examinou os efeitos de rotinas diárias de leitura no desenvolvimento de crianças com idades entre seis e oito anos. Os dados indicam que o contato frequente com narrativas ficcionais pode ser determinante para o aprimoramento da empatia cognitiva e da capacidade criativa, independentemente do método de leitura aplicado pelos cuidadores.
A metodologia da pesquisa envolveu 41 crianças residentes na região central da Virgínia, nos Estados Unidos, juntamente com seus respectivos responsáveis. Para a realização do experimento, os participantes foram divididos aleatoriamente em dois grupos distintos com abordagens de leitura diferentes. O primeiro grupo seguiu o modelo de leitura contínua, no qual os cuidadores liam livros ilustrados do início ao fim sem interrupções. Já o segundo grupo adotou a estratégia de pausa, onde a leitura era interrompida momentaneamente para que o adulto fizesse perguntas reflexivas sobre as ações e os sentimentos dos personagens da história. A intervenção ocorreu ao longo de duas semanas, período no qual sete livros selecionados foram lidos duas vezes para cada criança.
Ganhos observados na fluência criativa
As análises realizadas antes e depois do período de intervenção revelaram que a empatia é uma habilidade multidimensional, compreendendo tanto a empatia cognitiva, que se refere à compreensão dos pensamentos alheios, quanto a empatia emocional, ligada ao compartilhamento de sentimentos. Os resultados mostraram que ambos os grupos apresentaram melhorias significativas na empatia cognitiva e na originalidade criativa em comparação à linha de base inicial. A literatura de ficção e fantasia demonstrou ser uma ferramenta promissora, pois incentiva a identificação com os personagens e a reflexão sobre situações sociais complexas. Além disso, observou-se que a criatividade e a empatia estão interligadas, compartilhando uma dependência comum da imaginação e do pensamento flexível para se desenvolverem.
Apesar dos ganhos gerais, houve diferenças notáveis dependendo da técnica utilizada. As crianças submetidas ao grupo de pausa, que eram estimuladas com perguntas reflexivas, demonstraram ganhos significativamente maiores na fluência criativa — ou seja, na quantidade de ideias geradas — do que aquelas do grupo de leitura contínua. Isso sugere que o ato de questionar e refletir durante a narrativa pode potencializar a geração de novas ideias. Por outro lado, a empatia emocional não apresentou mudanças estatisticamente relevantes no curto período de duas semanas. Outro dado relevante apontado pela análise foi a influência da idade: crianças mais velhas tenderam a apresentar pontuações de originalidade mais baixas do que as participantes mais novas.
Interpretação dos dados e limitações
Os pesquisadores ressaltam que, embora os resultados sejam promissores, eles devem ser interpretados como preliminares e não como uma prova definitiva de causa e efeito, dadas as limitações da amostra e a duração do estudo. A análise final destacou que o experimento foi mais eficaz em identificar mudanças substanciais gerais do que em detectar diferenças sutis entre os dois estilos de leitura testados. De modo geral, a conclusão aponta que a leitura compartilhada diária é uma estratégia simples para nutrir habilidades socioemocionais na primeira infância. O estudo sugere a necessidade de novas investigações para examinar o impacto de conversas significativas, do contato físico e de outras formas de interação entre crianças e adultos nesse processo de desenvolvimento.



