Senti um esbarrão, estava olhando para o celular com a mão para o alto e, quando
olhei de novo, ele tinha sumido. Eram quase vinte horas de uma sexta, na frente de
uma livraria badalada de São Paulo. Aguardava a chegada do Uber que, quando veio,
me encontrou desnorteada. Entendendo o que tinha acabado de ocorrer, se solidarizou,
disse que eu tinha o nome da sogra dele. Ora, vejam, era um apaixonado pela sogra.
Esperou que eu fizesse alguns contatos avisando a família com o celular de amigos
presentes e, assim, me levou de volta ao hotel. Antes disso, a solidariedade: “Vem pra
cá!”, “O que houve?”, “Você está bem?” “O que podemos fazer pra te ajudar?”, essas
foram algumas das frases que ouvi das mulheres presentes. Éramos uma legião de
escritoras encerrando um sarau literário muito emocionante e nada nos fazia crer que
uma noite tão alegre e poética pudesse terminar com um ato inusitado daquele (ou
não, já que eu era a caipira do interior de Minas) e, a maior parte delas, moradoras de
de São Paulo ou outros grandes centros. Ou seja, mulheres que sabem que esse tipo
de furto ocorre com cada vez mais frequência. A capital é contabilizada como a terceira
com maior número de furtos do aparelho, ficando atrás de Manaus e Teresina. Das
cinquenta cidades do ranking, quinze ficam no estado de São Paulo e a principal forma
de atuação deles foi a utilizada comigo, via bicicleta, com um condutor “disfarçado” de
entregador de Ifood.
O evento já tem um ano de ocorrência e lembro que, após o incidente, me senti
assaltada por sentimentos como o de invasão, impotência e vulnerabilidade. Horas
depois pela culpa, pela minha falta de cuidado e malícia. E passado uma semana, pelo
sentimento de precariedade e impunidade que nos ronda. Dias depois comprei outro
celular e a espera seria mais sete dias sem o aparelho. E o que significou ficar sem
esse objeto na atual conjuntura foi surpreendente. Fui obrigada a uma pausa, a um
respiro, a uma quase pirada, a uma sensação de urgência para resolver coisas, a uma
quietude e a um sentimento de conformidade. E isso nos fala da nossa vida, das
nossas ilusões, das nossas distrações e urgências inventadas. A pausa, mesmo que
relativa, me obrigou a ter menos ansiedade de visitar o aparelho para me deter e me
perder em suas estranhas e tão conhecidas e sinistras entranhas, seduções e
promessas. Tive que frear minha vontade de fazer isso, de ceder aos seus apelos, às
minhas carências, mas também de pensar nas tarefas e mensagens acumuladas. E, de
certa forma, veio a tranquilidade de pensar que para o que não tem jeito, a solução
está dada. Para alguém que vive online a sensação é de descarte. De estar
literalmente fora do “sistema”. “Se ninguém te vê você não existe” surge como uma
armadilha terrível e, ao mesmo tempo, dissolve-se em uma ilusão narcísica. Vemos
facilmente o quanto o mundo continua girando independente de nós, de nossos stories,
vícios e vaidades. Aquele ligeiro esbarrão que abalou minha rotina, também estremeceu minhas frágeis convicções, minha visão, meu corpo, boca e olhos afora e adentro.
Girlene Verly é escritora, poeta e dançaterapeuta nascida em Araruama, RJ, há anos morando no interior de Minas. É graduada, mestre em Letras pela UFSJ e doutora em Literatura Comparada pela UFMG. Já publicou em jornais, revistas literárias e antologias. Em 2023 lançou “O corpo sabe que é terça”, mas se distrai”, pela Editora Folheando e em 2024 “Dança de samambaias”, pela Editora Patuá. Instagram: @autora_verly




