Eu estou na idade em que de manhã por vezes sinto algumas dores ao me levantar
e não consigo mais bater perna o dia todo com a mesma disposição; também não
devo me sentar de qualquer forma ou posso me surpreender com um mal jeito na
coluna.
Na minha idade começo a me afastar de alguns grupos e me aproximar de outros;
Não discuto com quem não tem a possibilidade de ver as coisas de vários ângulos;
Não posso sair do banho sem um hidratante, passar o dia sem protetor solar e
labial, preciso de óculos, vitaminas e musculação.
Nessa idade eu não posso vestir qualquer coisa. Quero conforto, nada que me
prenda a pele, o sangue e as ideias; preciso comer certas coisas e evitar outras; Eu
me olho no espelho e tem dias que não me reconheço.
Não tenho as mesmas pernas, os mesmos seios, o bumbum tão diferente… Os
braços, a barriga… não são só rugas, há uma nova forma, um novo olhar que ora
detesto, ora acolho; Nessa mesma idade sinto que fiz muito boas escolhas e me
admiro de alguns feitos; me alegro e agradeço o poder de me reconstruir
continuamente e então vejo a beleza que habita em mim;
O problema é que sou testemunha dos milagres da estética, a pele jovem
conservada em mulheres da minha idade e até mais velhas, fico tentada a também
infringir um feitiço ao tempo que, implacavelmente, destrói nossos corpos, de forma
ágil e impiedosa. Cedo ao botox e arrumo mil justificativas para amenizar minhas
contradições. O que é ruim também pode ser bom.
Na minha idade sou muito eu. As críticas me são indiferentes. Ninguém poderia ter
vivido no meu lugar, feito o que fiz, sentido o que senti. Daí constato que não sou
melhor que ninguém porque jamais viveria sua vida.
Estou numa idade em que contrastes se apresentam e me assombram; sou
experiente, mas nem tanto; vivi o suficiente para ver que as distrações do mundo
parecem muito avançadas e interessantes, mas a humanidade não parece caminhar
rumo a sua elevação espiritual; Tenho muitas ideias mas não posso realizar todas;
quero ficar só, mas valorizo cada vez mais as pessoas ao meu redor; sinto-me mais
livre para ser o que sou e por isso escolho novas prisões para ainda me aventurar;
Na minha idade sou uma jovem senhora que aprendeu a gostar da disciplina e a
abandoná-la quando me convém; Adoro dormir, bem mais do que imaginei, já que
houve um tempo em que acreditava que dormir era perder tempo.
Por vezes parece que poderia viver sem sexo, mas, de repente, chegam-me ondas
de tesão e calor que mantém vivo todo o meu desejo mais puro e selvagem.
Se puder, não uso salto, esmalte, maquiagem, nem calcinha e me vejo mais bonita
e desejável que antigamente porque hoje eu me desejo mais. Hoje eu sei de que
carinhos gosto, investigando sempre novos caminhos para o prazer.
Essa sou eu na minha idade, experimentando o bom e o não tão bom da vida, mas
seguindo com a confiança de que é preciso sonhar, dançar, mergulhar para dentro e
voar para fora e me permitir novos olhares para todas as coisas.
Girlene Verly é escritora, poeta e dançaterapeuta nascida em Araruama, RJ, há anos morando no interior de Minas. É graduada, mestre em Letras pela UFSJ e doutora em Literatura Comparada pela UFMG. Já publicou em jornais, revistas literárias e antologias. Em 2023 lançou “O corpo sabe que é terça”, mas se distrai”, pela Editora Folheando e em 2024 “Dança de samambaias”, pela Editora Patuá. Instagram: @autora_verly




