Saúde & Bem-estar

Silêncio dos pais sobre sexo pode colocar jovens autistas em perigo real

Pesquisa indica que falta de orientação expõe adolescentes com TEA a violência íntima e dificuldades de socialização

A sexualidade de adolescentes com Transtorno do Espectro Autista (TEA) permanece cercada de estigmas, o que resulta em perigos significativos para o bem-estar desses jovens. Uma revisão publicada na revista Ciência & Saúde Coletiva, conduzida pela Universidade Federal de Alagoas (UFAL), demonstra que a relutância de pais e responsáveis em abordar o tema, muitas vezes na tentativa de preservar a inocência, acaba gerando desinformação. Embora as transformações biológicas da puberdade ocorram de maneira similar a indivíduos neurotípicos, a compreensão das normas sociais, limites e privacidade é processada de forma distinta, exigindo orientação adequada para evitar interpretações equivocadas sobre o próprio corpo e o contato com terceiros.

A ausência de preparo educacional torna esse grupo mais suscetível a infecções, gravidez não planejada e situações de violência íntima. O grau de vulnerabilidade varia conforme a classificação do DSM-5, sendo mais acentuado em pessoas que necessitam de suporte elevado e dependem de auxílio constante. A dificuldade em compreender as mudanças corporais, somada à falta de leitura de contextos sociais, impede que muitos identifiquem violações ou consigam comunicar ocorrências graves. A infantilização por parte da família, que ignora o desenvolvimento natural dos filhos, contribui para que informações vitais sobre convívio social sejam omitidas, deixando os jovens desprotegidos.

Comunicação clara e riscos

Especialistas reforçam a necessidade de clareza na linguagem utilizada para descrever a anatomia humana. Andrea Hercowitz, hebiatra e coordenadora na Faculdade Israelita de Ciências da Saúde Albert Einstein, destaca a importância do vocabulário correto para a segurança do adolescente. “Uma pessoa com grau elevado de suporte pode não conseguir explicar um assédio que sofreu por não saber nomear as partes do seu corpo corretamente ou por não entender o que aconteceu. É importante aprender a nomear as partes do corpo”, afirma a médica. A falta de diálogo obriga muitos jovens a buscarem respostas em fontes não confiáveis, expondo-os a conteúdos inadequados e riscos digitais.

O silêncio sobre o tema amplia estatísticas preocupantes, conforme aponta uma meta-análise da revista Trauma, Violence, & Abuse, indicando que 40% dos indivíduos com autismo já sofreram algum tipo de violência íntima. A médica Aline Veras Morais Brilhante, da Universidade Federal do Ceará (UFC), alerta para o cenário doméstico. “Infelizmente, boa parte dos cases de abuso sexual na infância ocorre dentro de casa, no ambiente familiar ou com pessoas próximas”, observa. Além da vitimização, a falta de consciência social pode levar a atitudes incorretas em público. “Vale destacar também que, quando não falamos sobre sexualidade com o jovem, aumentamos o risco de ele próprio se tornar um agressor”, completa a especialista.

Prevenção e ensino precoce

Para mitigar esses problemas, a recomendação da Unesco é iniciar a educação sobre o corpo e limites a partir dos cinco anos, adaptando a abordagem à capacidade cognitiva de cada indivíduo. O foco inicial não reside no ato sexual, mas no reconhecimento do próprio corpo e na compreensão do consentimento, ensinando quais toques são permitidos e quem pode realizá-los, como em contextos de higiene ou consultas médicas. A naturalização da diversidade e o uso de recursos lúdicos são ferramentas essenciais para garantir que o desenvolvimento ocorra com segurança, prevenindo transtornos mentais futuros e promovendo a autonomia necessária para a vida adulta.

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