
Gustavo Uchôas Guimarães Professor de História em Elói Mendes, vive em Varginha. Historiador, escritor, pesquisador, poeta e um insaciável leitor e curioso.
Ao longo da História da Educação, muitas teorias surgem para expressar maneiras de se pensar o ensino e a aprendizagem. Desde as mais tradicionais até as mais progressistas e libertadoras, são muitas pedagogias tentando dar conta de questões: como o ser humano aprende? qual o melhor método para ensinar? que práticas são mais eficazes para garantir o pleno desenvolvimento do ser humano através da educação? Algumas pedagogias dão certo, outras não. Algumas pedagogias são eficientemente adaptadas a várias realidades, outras não. Nos parágrafos seguintes, vamos conhecer um pouco da Pedagogia de Reggio Emilia, surgida na Itália como uma reação educacional ao fascismo que precisava ser superado na sociedade italiana.
Em 1945, na cidade de Reggio Emilia, norte da Itália, um grupo de pais e mães, trabalhadores, cansados da opressão fascista que havia dominado a educação italiana, decidiu construir, com as próprias mãos, uma escola para seus filhos. Eles venderam tanques de guerra abandonados, caminhões e cavalos para financiar a obra. O desejo era claro: criar uma escola que cultivasse democracia, solidariedade e pensamento crítico desde a infância. Eles sabiam o que queriam, mas não sabiam como fazer. Nesse momento, o pedagogo Loris Malaguzzi (1920-1994) foi morar em Reggio Emilia e não impôs um método; ele se colocou à escuta daquela comunidade, olhou para aquelas crianças com um profundo respeito e formulou a tese que é a base de tudo: a criança é rica, competente e detentora de cem linguagens.
A pedagogia de Reggio Emilia é uma filosofia estruturada em pilares:
- A criança protagonista:a criança não é vista como “tábula rasa” a ser preenchida pelo saber do adulto. Ela é um ser de direitos, pesquisadora, inventora, cheia de hipóteses e teorias sobre o mundo. O currículo não é pré-definido; ele emerge das perguntas, interesses e investigações das crianças.
- A pedagogia da escuta:o papel do professor não é falar, mas escutar. E a escuta aqui não é apenas auditiva; é uma escuta atenta dos corpos, dos gestos, dos desenhos, dos silêncios. O professor escuta para “aprender a ensinar”, para saber qual o próximo “gancho” que lançará para a criança aprofundar sua pesquisa.
- As cem linguagens da criança:Malaguzzi dizia que a criança se expressa de múltiplas formas (fala, desenho, pintura, escultura, movimento, teatro, luz, sombra, matemática, música). A escola de Reggio oferece materiais ricos e variados para que essas linguagens possam florescer, superando a ditadura da linguagem oral e escrita.
- O ambiente como terceiro educador:o espaço físico não é apenas um cenário, ele é um agente educativo. Em Reggio, as escolas são luminosas, esteticamente cuidadas, repletas de transparências (vidros), espelhos e materiais organizados em “ateliês”. O ambiente deve acolher, desafiar e provocar encontros. A “Piazza” (praça central) é um local simbólico de socialização e convivência.
- O ateliê e o atelierista:um elemento inovador é a presença do “Atelierista”, um profissional com formação em artes visuais que trabalha em parceria com o professor regente. O Ateliê é um espaço de experimentação, de manipulação de materiais e de desenvolvimento da sensibilidade estética.
- Documentação pedagógica:não há avaliações formais ou notas. O registro é contínuo e transformado em “documentação”. Fotos, vídeos, transcrições das falas das crianças, seus desenhos e produções são organizados em painéis, pastas e livros. A documentação serve para tornar visível o processo de aprendizagem, permitindo que as crianças reflitam sobre o que fizeram, que os professores reavaliem suas práticas e que os pais compreendam a riqueza do que ocorre na escola.
- Participação das famílias:a escola não é um muro isolado da comunidade. As famílias são parceiras ativas, participam da gestão, das decisões e da vida escolar.
- Formação contínua e pesquisa:o professor é visto como um pesquisador permanente. A formação acontece na prática, através da reflexão conjunta sobre a documentação e do diálogo com os colegas e atelieristas.
Essas propostas da pedagogia de Reggio Emilia e a reflexão sobre sua aplicação em diferentes realidades nos fazem pensar em pontos positivos e negativos. Os pontos positivos têm a ver com o respeito absoluto à singularidade e ao tempo da criança, a valorização da estética e da criatividade como direitos humanos, a promoção de uma educação democrática e participativa e a visibilidade do processo de aprendizagem através da documentação. Entre os pontos negativos ou desafios da pedagogia de Reggio Emilia, podemos mencionar a aura romântica e elitização (abordagem idealizada, esquecimento das lutas políticas que a originaram e mercantilização da pedagogia), falta de infraestrutura para aplicação da pedagogia de Reggio Emilia (a abordagem depende de espaços físicos adequados e materiais ricos, o que pode ser um obstáculo em realidades de precariedade econômica) e dificuldade de transposição (não é possível simplesmente “copiar e colar” Reggio Emilia, pois é uma filosofia a ser reinventada em cada contexto cultural).
Em relação a pedagogias desenvolvidas no Brasil, a de Reggio Emilia tem possibilidades de diálogo e convergência. Com Paulo Freire, a pedagogia de Reggio Emilia converge quanto à visão de sujeito. Para Freire, o aluno não é um recipiente “bancário”, mas um ser que aprende a ler o mundo para transformá-lo. Para Malaguzzi, a criança é competente e rica. Ambos recusam a educação autoritária e defendem o diálogo como princípio educativo. A “Pedagogia da Escuta” de Reggio é o eco prático do diálogo freireano. Com Anísio Teixeira e a Escola Nova, as ideias de Malaguzzi e da pedagogia de Reggio Emilia convergem quanto à defesa do aluno como centro da escola. Elas convergem também com os eixos estruturantes das Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação Infantil, em especial no que diz respeito às interações e brincadeiras.
Como se vê, a pedagogia de Reggio Emilia é uma boa proposta, que pensa no pleno desenvolvimento do aluno. Mas, é uma proposta que não está descolada de contextos históricos, pedagógicos e culturais: ela nasceu como uma reação ao pensamento fascista na Itália pós-guerra, pensando em crianças do norte da Itália. Portanto, para adequação a outras realidades históricas, pedagógicas e culturais, é preciso um trabalho de escuta e diálogo (os principais motes da pedagogia de Reggio Emilia), com formação contínua e gestão democrática que envolva todos os participantes da aplicação dessa pedagogia.



