Não sei em que idade isso começa, talvez desde o início. Tão enfeitadas, estimuladas a estarem arrumadas, “bem apresentadas”, femininas, na moda, ou na “trend” da vez.
Se não começa no nascimento (e acho que começa) torna-se explícito cada vez mais cedo, o que gera uma carga de estresse diário na vida da menina e da família, além de outros inconvenientes futuros. É curioso que tantas gerações continuem estimulando nossas meninas a valorizar tanto seu exterior em detrimento de todo o resto. Curioso porque sabemos o quanto isso traz sofrimento às mulheres e, como quase tudo, tem explicação. Muitas. Para conhecer mais sobre o tema leia “O mito da beleza” (2018).
Mas para saber se você também cai nessa armadilha tente se lembrar do que diz
quando é apresentada a uma menina pequena e muito bem arrumada (ou não). Sei, você quer ser agradável, quer lhe dar um elogio. E aí solta: Que linda! Que roupa bonita! Que cabelo, que sapato, que brinco, que isso e aquilo.
O que você diz se for um menino? A ele provavelmente você não dirá que seus cabelos estão maravilhosos e que sua bermuda é um encanto. A ela provavelmente você não perguntará que livros lê, quais seus passeios preferidos, ou de que matéria da escola gosta mais. Para ambos você já pensou em perguntar sobre que esporte praticam ou gostariam de praticar? Já pensou em falar sobre seus artistas, filmes, livros e músicas preferidas?
Não sei quanto a você, mas eu passo por isso o tempo todo e hoje me policio sobre o que dizer, mesmo que ainda cometa “gafes” que vão contra o que acredito. Com isso, não digo que o cuidado com a aparência não deva existir, pelo contrário. Creio que seja fundamental que cada uma esteja confortável com a imagem que tem, valorizando-se. Porém, muitas vezes isso já é fonte de uma angústia que não precisa ser exacerbada com a cobrança social, com uma supervalorização e futilidade sem sentido, e até por uma competição cruel entre meninas e mulheres.
Precisamos estar atentas aos resíduos de nossa tradição machista, sexista e outros tantos vícios e automatismos de linguagem, comportamento e pensamento, para que nas próximas gerações cada uma seja valorizada, independente do que veste, da mochila que está usando. Sonho que cada uma seja valorizada por sua humanidade, essência e presença no mundo. Por tudo o que nos faz belas por sermos únicas.
Girlene Verly é escritora, poeta e dançaterapeuta nascida em Araruama, RJ, há anos morando no interior de Minas. É graduada, mestre em Letras pela UFSJ e doutora em Literatura Comparada pela UFMG. Já publicou em jornais, revistas literárias e antologias. Em 2023 lançou “O corpo sabe que é terça”, mas se distrai”, pela Editora Folheando e em 2024 “Dança de samambaias”, pela Editora Patuá. Instagram: @autora_verly




