Estudo associa consumo de álcool dos pais ao comportamento dos filhos
Levantamento com mais de 4 mil jovens indica que diálogo e regras claras são fatores de proteção, mesmo quando responsáveis consomem álcool
Um estudo recente publicado na revista científica *Addictive Behaviors* revela que o consumo de álcool e substâncias ilícitas pelos responsáveis impacta diretamente o comportamento de adolescentes. Conduzida por pesquisadores da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), a análise envolveu 4.280 jovens e seus pais em municípios do interior paulista. Os dados, coletados entre 2023 e 2024, indicam que a maneira como os adultos lidam com esses itens e o modelo de educação aplicado desempenham um papel determinante na prevenção ou no aumento dos riscos associados ao uso precoce.
A investigação identificou quatro estilos parentais distintos, destacando o perfil “autoritativo” como o que oferece maior efeito protetor. Este modelo combina acolhimento, diálogo aberto e monitoramento constante. Já o estilo autoritário, focado em disciplina rígida, demonstrou um impacto positivo menor. Em contrapartida, perfis permissivos, onde há afeto mas escassez de regras, e negligentes, caracterizados pelo distanciamento emocional, não apresentaram eficácia na proteção dos jovens contra o consumo de substâncias.
Dados sobre influência familiar
Os resultados apontam uma correlação estatística relevante entre os hábitos dos adultos e os dos jovens. O consumo de álcool pelos pais foi associado a uma probabilidade de 24% de os filhos também beberem. Quando os responsáveis utilizavam múltiplas substâncias ilícitas, o risco entre os adolescentes subia para 17% no caso do álcool e 28% para o uso de múltiplos itens. Entre os jovens entrevistados, cerca de 20% relataram ter consumido álcool no último mês, enquanto mais da metade dos pais admitiu uso recente.
Zila Sanchez, professora da Unifesp e autora principal do estudo, ressalta que a definição de limites pode mitigar riscos mesmo quando os pais não são abstêmios, embora a abstinência total dos responsáveis seja o cenário ideal. Segundo a pesquisadora: “Quando os pais são abstêmios, cerca de 89% dos jovens também não usam álcool nem outras drogas. Foi a associação mais forte que encontramos”. Ela complementa sobre a dinâmica familiar: “O padrão de uso de álcool e outras drogas pelos pais influencia o dos filhos. Mas quando há regras claras, limites e afeto, esses fatores ajudam a reduzir muito o risco, mesmo quando os responsáveis consomem essas substâncias”.
Importância da prevenção precoce
Financiado pela Fapesp, o projeto busca gerar evidências para orientar políticas públicas, envolvendo escolas e famílias em ações comunitárias. Especialistas reforçam que retardar o início do contato com essas substâncias é fundamental para diminuir problemas futuros, como doenças crônicas e dificuldades de aprendizagem. Apesar da proibição da venda de bebidas alcoólicas para menores, o acesso precoce continua frequente. A combinação de presença familiar, comunicação assertiva e limites consistentes é apontada como a estratégia mais eficaz para proteger o desenvolvimento dos adolescentes.



