Magreza extrema volta com tudo: entenda os perigos reais dessa tendência
Dados de desfiles e uso estético de remédios indicam mudança de padrão; profissionais detalham consequências físicas e mentais.
A valorização da magreza excessiva ressurgiu como um padrão estético influente, refletindo-se tanto nas redes sociais quanto na indústria da moda. Um levantamento realizado pela Vogue Business analisou quase 9 mil apresentações da temporada de outono de 2025 e constatou uma redução na diversidade de corpos: apenas 2% dos modelos vestiam tamanho médio e somente 0,3% eram plus size. Esses números, inferiores aos da temporada anterior, indicam um movimento de retorno a padrões restritivos, gerando preocupação entre profissionais de saúde sobre o impacto dessa cultura no comportamento da população.
Além das passarelas, o fenômeno é impulsionado pelo uso estético de medicamentos originalmente desenvolvidos para diabetes e obesidade. A nutricionista Fernanda Scagliusi, vinculada à Universidade de São Paulo (USP), observa que essa busca incessante altera a percepção sobre saúde, transformando intervenções médicas em ferramentas de ajuste social. Ao analisar o comportamento de quem utiliza tais substâncias sem necessidade clínica, ela afirma: “Quando a motivação (para o uso das canetas) é a magreza, o medicamento deixa de ser um tratamento e passa a funcionar como uma tecnologia de adequação corporal a normas sociais”.
Indicadores de risco à saúde
Para a medicina, a perda de peso deixa de ser saudável quando ultrapassa limites fisiológicos seguros. O endocrinologista Sergio Maeda, da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), esclarece que um Índice de Massa Corporal (IMC) inferior a 18,5 em adultos configura baixo peso, condição que eleva as chances de desenvolvimento de osteoporose, perda muscular severa e desnutrição. Paulo Miranda, da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM), reforça que o emagrecimento rápido, muitas vezes motivado por uma autoimagem distorcida, pode mascarar carências nutricionais graves, mesmo em indivíduos jovens.
O impacto psicológico dessa pressão estética é significativo, criando um terreno fértil para o desenvolvimento de transtornos alimentares. A validação social, expressa através de comentários positivos sobre a perda de peso, atua como um reforço para comportamentos nocivos. Rogéria Taragano, psicóloga do Ambulatório de Anorexia Nervosa da USP, descreve a progressão desse quadro: “Um transtorno alimentar, muitas vezes, começa com uma dieta. A pessoa emagrece, recebe elogios e passa a associar o valor pessoal à perda de peso. Em algum momento, ela perde o controle”.
Mudança no perfil afetado
Embora historicamente associada ao público feminino, a pressão pela magreza e definição corporal tem atingido outros grupos demográficos, alterando as estatísticas médicas. Entre os adolescentes do sexo masculino, a busca por um corpo musculoso pode ocultar sofrimento psíquico e distúrbios alimentares. Taragano destaca essa mudança de cenário: “No passado, falávamos em uma proporção de cerca de nove meninas para um menino (com transtorno alimentar) . Hoje, esse número está sendo questionado porque temos visto um aumento importante de casos entre meninos”. O emagrecimento extremo também está associado ao surgimento de um quadro emocional delicado e tensão emocional.



