Pesquisa aponta risco de deficiência de ferro em jovens com fluxo intenso
Análise sueca indica que restrição de carne e sangramento excessivo exigem monitoramento clínico além de exames de sangue tradicionais
A avaliação dos hábitos alimentares e do padrão menstrual de adolescentes deve ser integrada à rotina clínica com a mesma relevância dos exames laboratoriais para medição de ferro sérico e ferritina. Essa recomendação deriva de um estudo realizado na Suécia e publicado no periódico científico PLOS One, que analisou 394 estudantes com mais de 15 anos que já haviam passado pela primeira menstruação. As participantes responderam a questionários detalhados sobre suas dietas, sendo classificadas em grupos que variavam de onívoras a veganas, além de fornecerem informações sobre a duração e a intensidade do fluxo menstrual e o impacto do sangramento na qualidade de vida.
Os resultados da análise mostraram que 40% das participantes apresentaram níveis de ferritina abaixo do limite recomendado pela Organização Mundial da Saúde (OMS). Mais da metade das jovens relatou sangramento menstrual intenso, uma condição que se associou consistentemente a níveis reduzidos de ferritina e hemoglobina. Os indicadores mais preocupantes foram observados no grupo que combinava fluxo menstrual elevado com dietas restritas em carne. Essas adolescentes apresentaram um risco até 13 vezes maior de desenvolver deficiência de ferro em comparação às demais participantes do estudo, evidenciando a magnitude do efeito combinado desses fatores.
Importância da avaliação clínica e diagnóstico
Especialistas reforçam que a relação entre perda sanguínea e ingestão alimentar exige maior atenção médica, pois a deficiência do mineral pode ocorrer antes mesmo do surgimento da anemia. Liliane Diefenthaeler Herter, membro da Comissão Nacional Especializada em Ginecologia na Infância e Adolescência da Febrasgo, destaca a necessidade de uma abordagem prática. “A principal mensagem é clínica e prática: não basta avaliar a hemoglobina, é fundamental analisar o padrão menstrual e os hábitos alimentares das adolescentes, pois a deficiência de ferro pode estar presente mesmo sem anemia instalada”, afirma a ginecologista. A anemia só se instala quando a carência de ferro compromete a produção de hemoglobina e o transporte de oxigênio.
O quadro inicial de deficiência de ferro costuma ser silencioso, o que dificulta o diagnóstico precoce e pode confundir a identificação dos sintomas. Renata Lamego, ginecologista e obstetra do Einstein Hospital Israelita, explica os desafios na detecção do problema. “Quando ele aparece, envolve principalmente mucosas pálidas, cansaço, fadiga e desânimo, fatores que se misturam com o quadro normal da puberdade, complicando ainda mais na hora de determinarmos a causa”, esclarece a médica. A longo prazo, a falta do mineral pode comprometer o desempenho escolar e o desenvolvimento cognitivo, sendo as adolescentes particularmente vulneráveis devido à demanda gerada pelo estirão do crescimento somada às perdas menstruais.
Impactos no desenvolvimento e formas de tratamento
A investigação da intensidade do sangramento e do estilo de vida durante as consultas é essencial, visto que dietas sem orientação e hábitos como pular refeições podem agravar a situação. O tratamento depende da gravidade do quadro clínico e pode envolver a suplementação de ferro, além de intervenções para controlar o fluxo menstrual. Sobre as opções terapêuticas, Lamego comenta: “Também podemos prescrever uma pílula anticoncepcional, mesmo quando ainda não há vida sexual, pois elas podem trazer mais qualidade de vida, como menos fluxo e menos cólica, além de medicamentos que agem nesse sentido”.



