Descubra por que o calor extremo está deixando você mais irritado e cansado
Especialistas explicam como o aumento da temperatura impacta o comportamento, prejudica o descanso noturno e eleva níveis de estresse na rotina
Evidências científicas recentes indicam que as altas temperaturas ultrapassam o desconforto físico, impactando diretamente o comportamento humano e a regulação emocional. Um estudo publicado em 2025 na revista Frontiers in Public Health analisou o comportamento digital ao longo de uma década e identificou um padrão preocupante: para cada aumento de 1°C na temperatura média diária, houve um crescimento notável nas buscas online por termos associados a tristeza, solidão e tensão emocional. Os pesquisadores interpretam esse volume de dados como um termômetro emocional coletivo, evidenciando alterações psicológicas significativas na população durante períodos de calor intenso.
A psicóloga comportamental Daniela Faertes descreve o calor como um estressor contínuo que compromete a capacidade de autorregulação. Segundo a especialista, o esforço constante do corpo para se adaptar consome energia, deixando menos recursos para os desafios do dia a dia. Faertes explica que, nessas condições, “sobra menos energia psíquica para lidar com frustrações, demandas do trabalho e relações pessoais”. Essa dinâmica resulta em impaciência e reações desproporcionais, quadro agravado nas grandes cidades pelas ilhas de calor e desigualdades sociais relacionadas a moradia e transporte.
Impacto do calor no sono e humor
A persistência das temperaturas elevadas gera um ciclo de desgaste, corroborado por uma revisão na The Lancet Planetary Health, que associa o calor extremo à piora na qualidade do sono. Quando o descanso é prejudicado, a tolerância diminui drasticamente. Faertes pontua que “as pessoas ficam mais reativas, menos concentradas e mais propensas a conflitos; em ondas prolongadas de calor, esse padrão se repete dia após dia, criando um estado de esgotamento emocional coletivo”. Diante disso, especialistas defendem que tais efeitos comportamentais integrem com urgência o debate público sobre saúde.
Sob a ótica clínica, Niklas Söderberg, médico do Hospital Ipiranga, destaca o custo severo e invisível para o funcionamento do organismo. Ele observa que “O calor extremo impõe um estresse fisiológico ao organismo. Quando a temperatura se mantém elevada, o corpo precisa trabalhar mais para se resfriar, o que aumenta o desgaste físico e mental”. A situação é piorada pelo fenômeno das noites tropicais, onde a temperatura não cai o suficiente para a recuperação corporal, afetando diretamente o repouso e o comportamento social.
Adaptação e medidas preventivas
A falta de descanso adequado favorece a “irritabilidade, menor concentração, tolerância e, consequentemente, maior reatividade”, conforme afirma o médico. Söderberg ressalta que “Evidências mostram que as altas temperaturas prejudicam o sono, a capacidade de trabalho e a saúde mental, fatores diretamente ligados ao controle emocional e à forma como lidamos com situações de tensão”. Para mitigar os impactos na economia e nos sistemas de saúde, recomendam-se medidas como ajustes nas jornadas de trabalho, melhoria na climatização de edifícios e ampliação de áreas verdes nos centros urbanos.



