Nova descoberta brasileira pode revolucionar o combate à malária e impedir transmissão
Estudo da Unifesp e parceiros revela que molécula elimina parasita no fígado e sangue, além de evitar contágio pelo mosquito vetor
Pesquisadores brasileiros desenvolveram um composto sintético com potencial para tratar a malária e bloquear sua cadeia de transmissão. A nova molécula atua eliminando a forma assexuada do parasita tanto no sangue quanto no fígado humano, além de impedir que o protozoário seja repassado ao mosquito vetor. O estudo, liderado pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), representa um avanço significativo por demonstrar eficácia contra o *Plasmodium vivax*, espécie predominante no Brasil, e também contra o *Plasmodium falciparum*, considerado o mais agressivo entre os causadores da enfermidade.
A estratégia adotada pelos cientistas baseia-se em uma abordagem de múltiplos estágios, visando combater a doença de maneira integral. A validação dos resultados contou com testes realizados na Fiocruz de Rondônia, utilizando amostras sanguíneas de pacientes infectados. Sobre a relevância da descoberta para o cenário nacional, Anna Caroline Aguiar, professora da Unifesp e autora do estudo, destaca: “Um diferencial importante desse composto é sua eficácia contra o Plasmodium vivax, espécie predominante no Brasil e que não é possível cultivar de forma contínua em laboratório”.
Ação em três etapas biológicas
Os detalhes da pesquisa foram divulgados na revista científica *ACS Omega*, descrevendo o efeito triplo do composto derivado de 4-quinolonas naturais. A substância bloqueia a infecção no fígado, combate os estágios sanguíneos responsáveis pelos sintomas e impede a transmissão ao inseto. Aguiar ressalta a evolução do projeto: “Estudamos esse composto há cinco anos e, ao longo desse tempo, comprovamos seu efeito contra o parasita nas fases hepática e sanguínea, em que ele está no hospedeiro. Neste novo artigo, é a primeira vez que demonstramos de modo experimental sua ação em bloquear a transmissão da doença”.
Experimentos em cultura celular e em modelos animais confirmaram que a molécula inibe a formação do parasita dentro do mosquito. O mecanismo atinge a mitocôndria do protozoário, inibindo o complexo enzimático citocromo bc1, essencial para a replicação do DNA do *Plasmodium*. A pesquisadora explica a versatilidade do achado: “O que torna essa molécula especialmente interessante é que ela atua nas três fases do ciclo da malária: hepática, sanguínea e de transmissão. Em geral, o paciente com malária precisa de diferentes medicamentos para cobrir essas etapas e esse composto reúne potencial de tratamento e de bloqueio da transmissão, com possível uso para prevenção”.
Perspectivas para desenvolvimento de fármaco
Apesar dos resultados promissores, a equipe enfatiza que ainda há etapas a serem cumpridas até que a molécula se transforme em um medicamento comercial. A malária ainda tira a vida de cerca de 600 mil pessoas anualmente. Rafael Guido, professor do IFSC-USP e coautor do trabalho, reforça a importância da continuidade das pesquisas: “A molécula é uma excelente candidata. Os indícios [de eficácia] justificam o investimento para o desenvolvimento futuro de um medicamento. Isso porque, embora exista tratamento para a doença, trata-se de um parasita muito bem adaptado e capaz de desenvolver resistência aos medicamentos existentes”.



