O perigo oculto do sal que vai além da pressão alta: veja o que diz estudo
Revisão de artigos científicos confirma danos aos vasos sanguíneos e nutricionistas orientam sobre redução gradual do ingrediente na dieta diária
A ingestão elevada de cloreto de sódio, popularmente conhecido como sal de cozinha, é tradicionalmente vinculada à elevação da pressão arterial. No entanto, uma nova revisão de mais de cem artigos científicos, divulgada no periódico Nutrients, aponta que o ingrediente também favorece o desenvolvimento de aterosclerose. Esta condição caracteriza-se pela formação de placas de gordura e outras substâncias nas paredes das artérias, o que prejudica o fluxo sanguíneo e amplia as chances de eventos cardiovasculares graves. A nutricionista Valéria Machado, da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), reforça a conexão identificada pelos pesquisadores: “Esse trabalho e outros recentes têm mostrado que existe um elo direto entre o alto consumo de sal e a aterosclerose”.
O estudo detalha os mecanismos biológicos envolvidos nesse processo, destacando que o excesso de sódio pode lesionar o endotélio, a camada celular que reveste internamente os vasos sanguíneos. Esse dano compromete a elasticidade vascular e cria um ambiente propício para inflamações. Além disso, a pesquisa conduzida por cientistas da Polônia e da Austrália indica que dietas muito salgadas provocam disbiose, um desequilíbrio na flora bacteriana. A nutricionista Isis Avelino, do Hospital Israelita Albert Einstein, observa a abrangência da análise: “E até a microbiota intestinal é mencionada no artigo”. Essa alteração bacteriana eleva a produção de N-óxido de trimetilamina (TMAO), substância que facilita o acúmulo de gordura arterial.
Padrões de consumo e substituições saudáveis
O cenário no Brasil é preocupante em relação às diretrizes internacionais de saúde. Enquanto a Organização Mundial da Saúde (OMS) recomenda um limite diário entre 5 e 6 gramas de sal, a média de consumo da população brasileira atinge 12 gramas, o dobro do indicado. Especialistas sugerem que a redução deve ocorrer de maneira gradual para permitir a adaptação das papilas gustativas, que estranham a diminuição repentina do tempero. O uso de ervas frescas, como alecrim, sálvia, manjericão e coentro, além de especiarias e hortaliças como alho e cebola, são estratégias eficazes para manter o sabor das refeições sem comprometer a saúde cardiovascular.
Para auxiliar na mudança de hábitos, existem técnicas culinárias que aproveitam integralmente os alimentos para criar temperos naturais. Uma opção é o sal de ervas ou preparações à base de cascas de vegetais, que agregam nutrientes e compostos antioxidantes como a quercetina. Valéria Machado compartilha uma receita prática para substituir o tempero industrializado: “Separe as cascas de 4 cebolas, lave numa peneira e leve-as ao forno pré-aquecido para desidratar a 140°C por 10 a 20 minutos, cuidando para não queimar e, em seguida, bata com 100g de sal”. O uso de limão também é recomendado, pois sua adstringência reduz a necessidade sensorial de adicionar mais sódio aos pratos.
Mitos sobre sais gourmet e produtos industrializados
É fundamental esclarecer equívocos sobre as versões de sal consideradas “gourmet”, como o rosa do Himalaia, o marinho ou a flor de sal. Pesquisas da Universidade de São Paulo (USP) demonstram que o teor de sódio nessas variedades é praticamente idêntico ao do sal refinado comum. Isis Avelino alerta sobre o uso desses produtos: “Mesmo para esses tipos diferenciados, não se deve exceder na quantidade”. A atenção deve redobrar com alimentos ultraprocessados, como embutidos, macarrão instantâneo e temperos prontos, que possuem altas concentrações de sódio. A leitura dos rótulos, agora facilitada pela lupa de “alto em sódio” nas embalagens, é uma ferramenta essencial para o controle dietético.



