Saúde & Bem-estar

Transplante de rosto inédito usa doadora que escolheu o momento de partir

Cirurgia durou 24 horas e devolveu funções vitais a paciente que sofreu necrose grave causada por infecção bacteriana

Equipes médicas do Hospital Universitario Vall d’Hebron, localizado em Barcelona, na Espanha, concretizaram um marco na medicina reconstrutiva ao efetuar o primeiro transplante de face do mundo utilizando órgãos de uma doadora que passou por um processo de eutanásia. A beneficiária do procedimento, identificada apenas como Carme, convivia com sequelas severas de uma necrose facial provocada por infecção bacteriana, condição que comprometeu funções vitais como a respiração, a fala e a alimentação, além de causar isolamento social devido à gravidade das lesões.

A identidade da doadora foi preservada, mas sabe-se que ela manifestou explicitamente a vontade de doar seus órgãos, incluindo o rosto completo, antes da realização do procedimento de fim de vida. Essa decisão prévia permitiu que os especialistas realizassem um planejamento cirúrgico detalhado e personalizado. Com o uso de tecnologia de impressão e modelagem 3D, foi possível alinhar com precisão milimétrica os ossos, nervos e músculos entre doadora e receptora, algo incomum em cirurgias de alta complexidade que dependem de doações de emergência não planejadas.

Detalhes da microcirurgia e equipe

A operação estendeu-se por 24 horas e mobilizou cerca de 100 profissionais de diversas áreas, incluindo cirurgiões, anestesistas e engenheiros. O processo exigiu um trabalho exaustivo de microcirurgia vasculonervosa para reconectar vasos sanguíneos e nervos de dimensões minúsculas, garantindo que a face transplantada obtivesse irrigação, sensibilidade e movimentos integrados ao corpo de Carme. Além da parte técnica, o protocolo incluiu avaliação psicológica rigorosa, dado o impacto do rosto na identidade pessoal, e a prescrição de imunossupressores para evitar rejeição ao longo dos anos.

Quatro meses após a intervenção, a paciente apresenta progressos significativos em sua reabilitação clínica e funcional. Carme recuperou a capacidade de respirar com mais facilidade, falar de maneira inteligível e alimentar-se de forma natural, retomando hábitos cotidianos simples, como tomar café. Tais avanços representam uma mudança drástica em relação ao cenário anterior, quando a necrose limitava severamente sua qualidade de vida e interação com o mundo exterior, devolvendo-lhe a autonomia perdida.

Histórico de inovações em Barcelona

Transplantes faciais permanecem como procedimentos raros na medicina global, tendo o primeiro caso parcial ocorrido em 2005. O hospital espanhol responsável pelo caso atual possui histórico de pioneirismo na área, tendo executado, em 2010, o primeiro transplante total de rosto do mundo. Naquela ocasião, a equipe implantou toda a estrutura de pele, músculos, ossos e maxilar em um paciente vítima de acidente grave, consolidando a instituição como referência internacional em técnicas avançadas de reconstrução facial.

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