Especialista explica diferenças de transmissão entre Nipah e coronavírus
Renato Kfouri destaca que transmissão é difícil e vetores não são comuns no Brasil, afastando cenário similar à Covid-19
A possibilidade de uma disseminação em escala global do vírus Nipah, gerando um cenário comparável à recente crise sanitária da Covid-19, é avaliada como muito baixa por especialistas da área de saúde. O infectologista Renato Kfouri esclareceu o tema em entrevista à CNN, detalhando que as características biológicas e as formas de contágio deste agente infeccioso são distintas das observadas no coronavírus, o que limita consideravelmente sua capacidade de expansão territorial rápida.
Enquanto patógenos respiratórios possuem facilidade de propagação pelo ar, o Nipah exige condições muito mais específicas para infectar novos hospedeiros. Kfouri explicou que a dinâmica de transmissão entre humanos é consideravelmente mais complexa e menos eficiente. O médico pontuou as diferenças cruciais entre os agentes: “O coronavírus é um vírus respiratório, passa como uma gripe, um resfriado, com fácil transmissão de pessoa a pessoa. Um caso consegue gerar muitos outros casos. Já o Nipah tem como principal forma de transmissão a picada do morcego”.
Vetores e transmissão no Brasil
O especialista ressaltou que os morcegos frugívoros, identificados como os vetores primários e reservatórios naturais do vírus, não são espécies comuns na fauna brasileira. Adicionalmente, a dificuldade de transmissão direta entre pessoas atua como uma barreira natural, reduzindo significativamente o potencial pandêmico da doença. Essa característica biológica impede que o vírus ganhe a velocidade de propagação necessária para atingir múltiplos países simultaneamente, diferentemente do que ocorre com vírus de transmissão aérea facilitada.
O histórico epidemiológico dos surtos de Nipah reforça a avaliação de baixo risco global, uma vez que as ocorrências anteriores demonstraram ser autolimitadas geograficamente. Medidas padrão de controle sanitário, como o monitoramento ativo e o isolamento dos pacientes diagnosticados, mostraram-se suficientes para conter o avanço do vírus no passado. Sobre a eficácia dessas ações de contenção, Kfouri afirmou: “Os surtos mesmo acabam se esgotando só com essa vigilância e isolamento”.
Comparação com vírus influenza
Apesar da inexistência atual de vacinas ou tratamentos farmacológicos específicos para o Nipah, a comunidade médica volta suas atenções para outras ameaças virais consideradas mais iminentes e perigosas. O infectologista indicou que as mutações do vírus influenza e a gripe aviária representam riscos maiores em termos de potencial pandêmico devido à sua alta capacidade de mutação e contágio. Ele concluiu a análise observando: “A principal suspeita para vivermos uma próxima pandemia é um vírus da gripe, como tivemos em 2009 com a gripe suína”.



