O fim das injeções? Entenda como funciona o novo comprimido para emagrecer
Tecnologia SNAC permite absorção oral de medicamento biológico; versão diária exige jejum e chega ao mercado americano com alta dosagem.
A indústria farmacêutica alcançou um avanço significativo no tratamento da obesidade com a transformação de análogos de GLP-1, tradicionalmente injetáveis, em medicamentos orais. A Novo Nordisk desenvolveu uma versão em comprimido do Wegovy, que utiliza o mesmo princípio ativo do Ozempic, a semaglutida. O medicamento, aprovado pela agência regulatória americana, já começou a ser comercializado nos Estados Unidos, marcando uma nova etapa na administração de terapias para perda de peso que dispensam o uso de agulhas e facilitam a adesão ao tratamento diário.
O desenvolvimento enfrentou o desafio histórico de impedir que o sistema digestivo degradasse a molécula biológica antes que ela pudesse atuar no organismo. O ambiente ácido do estômago costuma destruir proteínas rapidamente, o que inviabilizava a eficácia de versões orais de substâncias complexas como a insulina. Para contornar essa barreira fisiológica, o laboratório dinamarquês incorporou uma tecnologia denominada SNAC, adquirida da Emisphere Technologies, que cria um microambiente capaz de neutralizar a acidez gástrica local e proteger o fármaco da degradação enzimática.
Inovação no sistema de absorção
O sistema de encapsulamento envolve o princípio ativo e interage diretamente com as células da parede estomacal para aumentar a permeabilidade e facilitar a entrada da substância na corrente sanguínea. Priscilla Mattar, vice-presidente da área médica da Novo Nordisk no Brasil, comenta a complexidade técnica superada durante o longo processo de pesquisa e desenvolvimento: “A história de como a semaglutida quebrou esse paradigma não é apenas a história de um novo medicamento, mas um marco de como a persistência científica e a inovação estratégica superaram um obstáculo que definia os limites da farmacologia”.
Mesmo com a proteção tecnológica avançada, a taxa de absorção do medicamento pelo corpo humano permanece baixa, com cerca de 1% da substância chegando efetivamente à circulação sistêmica. Estudos clínicos indicaram a necessidade de ajustar a dosagem para 14 mg no comprimido a fim de obter o mesmo efeito terapêutico da dose injetável de 1 mg. Sobre a composição e natureza do fármaco, Mattar esclarece: “É crucial entender que a semaglutida oral é a mesma molécula da versão injetável. Ou seja, mesmo em um comprimido, continua sendo um medicamento biológico”.
Protocolos de uso e concorrência
A administração do comprimido exige o cumprimento de regras estritas para garantir sua eficácia, devido à alta variabilidade na absorção entre diferentes indivíduos. Os pacientes devem ingerir a pílula obrigatoriamente em jejum, acompanhada de no máximo meio copo de água, e aguardar 30 minutos antes de consumir alimentos ou outros medicamentos. Paralelamente, a farmacêutica Eli Lilly trabalha na aprovação da orforgliprona, outro comprimido baseado em GLP-1, enquanto existe a expectativa de que essas novas opções terapêuticas sejam submetidas à análise para aprovação no mercado brasileiro.



