O cardápio que pode proteger a visão dos adolescentes, segundo estudo
Análise com dados de 2.473 jovens aponta relação entre consumo de alimentos frescos e saúde ocular, embora causas exatas exijam mais investigação
A incidência global de miopia tem apresentado um crescimento acelerado nos últimos anos, com projeções indicando que metade da população mundial poderá apresentar dificuldade para enxergar a distância até 2050. Diante desse cenário de expansão da condição, pesquisadores chineses decidiram investigar a influência da alimentação na saúde ocular, utilizando uma base de dados governamental de saúde dos Estados Unidos. O estudo analisou informações detalhadas de 2.473 adolescentes com idades entre 12 e 18 anos, dos quais 41% já possuíam algum grau diagnosticado, para verificar o impacto de hábitos alimentares específicos no desenvolvimento do problema.
Ao aplicarem modelos matemáticos para cruzar as variáveis disponíveis, os cientistas identificaram que uma maior adesão à dieta mediterrânea estava significativamente associada a uma redução nas chances de desenvolver o distúrbio visual. A análise considerou o diagnóstico a partir de meio grau de deficiência como ponto de corte. Os resultados, publicados no periódico científico British Journal of Nutrition, sugerem que esse perfil nutricional, caracterizado pelo alto consumo de alimentos naturais e baixo consumo de processados, pode atuar como um fator de proteção durante a fase crítica de desenvolvimento visual dos jovens.
Limitações da pesquisa e análise médica
Embora o levantamento não comprove uma relação direta de causa e efeito, especialistas apontam para a plausibilidade biológica dos achados apresentados. O oftalmologista Gustavo Gameiro, doutor pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), observa que esse padrão alimentar prioriza o consumo de hortaliças, frutas, peixes e azeite de oliva. Tais alimentos fornecem um aporte significativo de antioxidantes e ômega-3, substâncias que beneficiam as estruturas do globo ocular, oferecendo uma possível explicação para a associação observada pelos pesquisadores entre o cardápio equilibrado e a preservação da capacidade visual.
Apesar dos indícios positivos, o estudo possui limitações metodológicas que devem ser consideradas na interpretação dos dados, uma vez que fatores externos fundamentais não foram totalmente isolados na análise estatística. Gameiro ressalta a ausência de correlações com atividades físicas e a gravidade do quadro. Segundo a análise do especialista: “É uma pena que os pesquisadores não corrigiram os resultados inclusive em relação à prática de exercícios, porque a atividade física demanda visão a distância, o que interfere nessa propensão, nem correlacionaram seus achados ao ‘tamanho’ da miopia dos participantes”.
Fatores de risco e prevenção ocular
A ciência já estabeleceu conexões sólidas entre o aumento de casos e o uso excessivo de telas digitais ou a falta de exposição à luz natural durante a infância e adolescência. A dieta surge agora como um elemento adicional a ser monitorado, somando-se a estratégias já conhecidas de prevenção. O pesquisador brasileiro conclui que, mesmo com a descoberta promissora sobre a alimentação, as prioridades preventivas permanecem as mesmas. “É interessante investigar essa relação da miopia com a dieta, ainda que os fatores mais importantes para o seu desenvolvimento ainda sejam o tempo ao ar livre, quanto se ‘força a vista’ e mesmo a prática de atividade física”, afirma o médico.



