BÍBLIAS, BOMBAS E BANDEIRAS: O BBB QUE ELIMINA EM NOME DE DEUS
Reflexão que tem que ser lida
Gustavo Uchôas Guimarães, é professor nas cidades de Elói Mendes e Varginha na área de história, conta com vários livros publicados entre história, poesia e outros gêneros. É vice-presidente da Associação de poetas e escritores do Sul de Minas (Apesul) e membro da Acadêmia de letras e ciências de Varginha a AVLAC.
Os conflitos das últimas semanas, envolvendo principalmente Estados Unidos, Israel e Irã, são abomináveis por todos os lados (não há o que seja defensável em Donald Trump, em Benjamin Netanyahu e nos aiatolás iranianos). No jogo geopolítico, porém, um componente salta aos olhos em tempos de conflito: o discurso de uma luta entre “bem” e “mal” (onde, é claro, cada lado atribui para si o bem e para o outro o mal). No caso da guerra que vemos no Oriente Médio desde o fim de fevereiro, essa suposta – e falsa – luta entre “bem” e “mal” traz consigo um discurso que cresceu na teologia protestante estadunidense no século XIX e alimenta algumas igrejas cristãs até hoje: o cumprimento de promessas bíblicas através da criação do Estado de Israel e o caráter inquestionável das ações desse país que representaria o “povo eleito”. Esse discurso, desde o século XIX, transpôs os limites das igrejas e foi apropriado por dirigentes políticos que apoiam o chamado “sionismo cristão” e usam esse discurso para legitimar inúmeros ataques e o levantamento de bandeiras que mesclam política e religião para eliminar inimigos em nome de Deus.
O “pai do sionismo cristão” é o irlandês John Darby (1800-1882), teólogo protestante que deixou obras sobre o chamado “dispensacionalismo”, ou seja, a ideia de que Deus dispensa suas graças e sua ação em meio a humanidade ao longo da História (a história bíblica seria dividida em períodos ou “dispensações”). Os ensinamentos de Darby foram amplamente divulgados nos comentários da Bíblia de Referência Scofield, muito utilizada nas igrejas protestantes estadunidenses no século XIX; um dos principais ensinamentos versa sobre o caráter literal de promessas bíblicas feitas aos antigos judeus que seriam cumpridas com a criação do Estado de Israel no Oriente Médio. Esses ensinamentos, bastante divulgados nos Estados Unidos e enraizados na teologia de muitas igrejas protestantes desde o século XIX, tornaram os estadunidenses os maiores apoiadores da causa do Estado de Israel, achando que, com isso, estariam abençoando a descendência de Abraão conforme o texto bíblico de Gênesis 12,3 (“Abençoarei os que te abençoarem e amaldiçoarei os que te amaldiçoarem”). O trabalho de John Darby em torno do “sionismo cristão” foi uma das influências ao desenvolvimento do “sionismo judaico” por Theodore Herzl (1860-1904), que pregava a criação do Estado de Israel como um “trabalho messiânico”.
A teologia dispensacionalista de John Darby e sua influência no pensamento religioso e social estadunidense ajudam a explicar, por exemplo, o montante de investimentos feitos pelos EUA no Estado de Israel, auxiliando amplamente quanto a armas, treinamentos e outros investimentos voltados à manutenção de Israel no Oriente Médio e sua defesa frente aos países árabes. Com isso, os EUA acreditam trabalhar para que Deus cumpra o plano para Israel, como pré-requisito para a vinda do Messias (a primeira vinda, de acordo com a teologia judaica, ou a segunda, de acordo com a teologia cristã). E essa crença chega ao ponto extremo do silêncio de muitos evangélicos frente às atrocidades do governo de Israel, como os massivos ataques a civis palestinos, libaneses e iranianos. Como exemplo desse extremismo, temos a recente comemoração por parte da pastora e cantora Ana Paula Valadão, que celebrou, nas redes sociais, a precisão dos mísseis estadunidenses e israelenses (mesmo sabendo que essa precisão matou mais de uma centena de meninas em uma escola).
O uso político da teologia que enxerga no atual Israel uma continuação ou um cumprimento de promessas bíblicas pode ser exemplificado em declarações de Benjamin Netanyahu, primeiro-ministro de Israel, que já declarou, por exemplo, que Jerusalém pertence inteiramente a Israel (e não pode ser dividida com o Estado Palestino) porque é mencionada 850 vezes no Antigo Testamento (portanto, muito mais vezes do que nas Escrituras de outros credos religiosos). Ou ainda, também podemos perceber a intensa mistura de teologia protestante (“sionismo cristão”) e política nas falas de militares estadunidenses que tratam os atuais conflitos contra o Irã como parte do “armagedom” (a batalha final descrita no livro bíblico do Apocalipse) – inclusive, chamando Trump de “ungido por Jesus” – e na fala de Benjamin Netanyahu que comparou o Irã ao povo de Amalec (que atacou os israelitas no deserto e, posteriormente, foi castigado por Deus com sua eliminação sob a vitória de Davi, o maior dos reis do antigo Israel).
Essa teologia que originou o “sionismo cristão”, como vimos, é uma interpretação feita por teólogos protestantes no século XIX, não encontrando amparo em escritos teológicos anteriores e sendo exclusiva de movimentos protestantes britânicos e estadunidenses. Outras igrejas cristãs (catolicismo romano, igrejas ortodoxas orientais e outras igrejas com origens africanas e asiáticas, por exemplo) não compartilham dessa teologia. No Ocidente, o maior contraponto é feito pelo catolicismo romano: a Igreja Católica reconhece o povo judeu como escolhido por Deus (Romanos 9,4-5), mas destaca que o sacrifício de Cristo na cruz uniu judeus e os demais povos em si mesmo, criando “em si mesmo um só Homem Novo” (Efésios 2,15). Além disso, o catolicismo condena as perseguições contra os judeus, negando a ideia de que a culpa da morte de Cristo deva ser atribuída a todos os judeus; por outro lado, destaca que “Deus não é propriedade de nenhum povo” (Catecismo da Igreja Católica, parágrafo 782) e que o povo de Deus abrange todo aquele que nasce do Alto, da água e do Espírito (João 3,3-5). Por fim, a teologia católica apresenta a restauração de Jerusalém e o cumprimento de promessas bíblicas como algo a ser realizado no plano espiritual e não no campo político.
Todo o cenário exposto aponta para uma realidade: a interpretação bíblica, por parte de líderes protestantes no século XIX, foi apropriada por um discurso político de “messianismo” e de atribuição dos conflitos por território a uma luta entre o “bem” e o “mal” (a definição do papel de “bom” e de “mau” fica ao sabor das conveniências geopolíticas). Essa apropriação da teologia conhecida como “sionismo cristão” é largamente utilizada por políticos que se dizem enviados por Deus – outro exemplo além dos citados: George Bush, na década de 2000, dizia abertamente que havia recebido ordens divinas para atacar o Iraque (na época, os EUA foram pressionados por Israel para realizar a invasão). Assim, justifica-se o injustificável: bombardeios e mortes de milhares de civis, em nome da bandeira messiânica. Para que alguns terroristas sejam atacados e mortos – diga-se de passagem: muitos grupos terroristas surgiram de organizações financiadas pelos EUA na época da Guerra Fria –, milhares de mulheres, crianças, idosos, doentes e miseráveis também são mortos (e têm suas mortes ignoradas ou até mesmo celebradas por defensores do “sionismo cristão”).
Tanto para cristãos como para todos – independente de credo – os que desejam a “paz na terra aos homens de boa vontade” (Lucas 2,14), a postura diante dos conflitos no mundo atual deve ser de defesa da paz e denúncia das injustiças – mesmo que isso traga perseguições (Mateus 5,9-10). Um exemplo de denúncia é o Documento Kairos Palestina, assinado por várias igrejas cristãs que mantém presença no território palestino (Patriarcado Ortodoxo Grego de Jerusalém, Igreja Evangélica Luterana em Belém, Comunhão Anglicana em Jerusalém, etc.) e que chama a atenção para a necessidade e a urgência de sonhar com a paz e trabalhar por ela, até que se chegue à verdadeira reconciliação, em que “a misericórdia e a verdade se encontram, a justiça e a paz se abraçam” (Salmo 85,10).
Para ler e saber mais:
– Livro “Por amor de Sião”, sobre o sionismo cristão = https://www.igrejaredencao.org.br/ibr/index.php?option=com_content&view=article&id=3952
– Artigo “O lobby de Israel” = https://www.lrb.co.uk/the-paper/v28/n06/john-mearsheimer/the-israel-lobby
– Comemoração de Ana Paula Valadão = https://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2026/03/pastora-ana-paula-valadao-e-marido-celebram-os-ataques-ao-ira-e-justificam-a-guerra-para-defender-a-igreja-e-a-familia.shtml
– Netanyahu e o argumento bíblico para dominar Jerusalém = https://www.gazetadopovo.com.br/mundo/netanyahu-recorre-a-biblia-para-reivindicar-jerusalem-0q6312bbon4x3fmnl88x1t1se/
– Mistura de religião com política nos conflitos no Oriente Médio = https://www.brasilparalelo.com.br/noticias/militares-falam-que-conflito-no-ira-e-parte-do-apocalipse-biblico (a referência aos sites Brasil Paralelo e Gazeta do Povo – ambos alinhados a ideologias de direita – reforça que a abordagem sobre o “sionismo cristão” no texto acima não é o que conservadores chamariam de “narrativa esquerdista”)
– Relação do catolicismo com o povo judeu = https://www.instagram.com/p/Cywgo9Ku9pt/ e https://www.instagram.com/p/Cywg1pkuC0N/
– Sobre a “Nova Jerusalém” na visão católica = https://formacao.cancaonova.com/igreja/a-nova-jerusalem/
– Documento Kairos Palestina (em português) = https://kairospalestine.ps/images/KAIROS_PALESTINE2_portugese.pdf



