O único brasileiro na lista da TIME que revolucionou o combate à dengue
Cientista é reconhecido globalmente pelo desenvolvimento do método Wolbachia, que reduz a transmissão de vírus pelo mosquito Aedes aegypti.
O cientista brasileiro Luciano Moreira foi anunciado nesta quarta-feira, 11, como um dos integrantes da lista TIME100 Health 2026. A seleção, organizada pela revista norte-americana TIME, destaca as cem personalidades mais influentes do setor de saúde em todo o mundo. Engenheiro agrônomo e entomologista, Moreira é o único representante do Brasil no ranking deste ano. O reconhecimento internacional deve-se ao seu trabalho pioneiro no desenvolvimento e aplicação do método Wolbachia, uma estratégia que utiliza os próprios mosquitos para bloquear a transmissão de arboviroses como dengue, zika e chikungunya, transformando o vetor em um aliado no controle dessas doenças.
A técnica liderada pelo pesquisador consiste na infecção de mosquitos *Aedes aegypti* com a bactéria Wolbachia em ambiente laboratorial. Após a liberação desses insetos na natureza, eles continuam a viver e se reproduzir, transmitindo o microrganismo para as gerações seguintes. A presença da bactéria no organismo do vetor dificulta que o vírus da dengue se estabeleça e se multiplique, reduzindo drasticamente a capacidade de transmissão aos seres humanos. A ciência investiga as causas exatas desse bloqueio, trabalhando com hipóteses que vão desde a estimulação de proteínas com ação antiviral até a possibilidade de que a bactéria “dispute espaço” e recursos com o vírus dentro do inseto.
Eficácia comprovada em pesquisas
Dados recentes comprovam a efetividade da estratégia na saúde pública. Uma pesquisa publicada na revista *The Lancet* indicou uma redução média de 63% nos casos de dengue nas regiões onde a metodologia foi aplicada. Em Niterói, no Rio de Janeiro, cidade que serviu de campo de testes após estudos iniciais conduzidos por Moreira na Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), a queda na incidência da doença chegou a 89% após a introdução dos vetores modificados. A relevância desses resultados já havia garantido ao pesquisador, em dezembro do ano anterior, um lugar entre os dez cientistas mais influentes de 2025, segundo apontamento da revista científica *Nature*.
A trajetória de Moreira inclui passagens por instituições nos Estados Unidos e na Austrália, onde atuou na Universidade de Melbourne ao lado de Scott O’Neill, um dos pioneiros nos testes com a bactéria. De volta ao Brasil, o cientista iniciou os experimentos na Fiocruz, evoluindo de processos manuais para uma operação robusta. Em julho, ele inaugurou a Wolbito do Brasil, fruto de uma parceria entre a Fiocruz e o World Mosquito Program. A unidade é considerada hoje a maior biofábrica do mundo dedicada à produção de *Aedes aegypti* com Wolbachia, gerando milhões de ovos semanalmente para soltura em áreas urbanas estratégicas.
Expansão da estratégia nacional
Atualmente, o Ministério da Saúde reconhece o método como uma ferramenta oficial e vem ampliando o uso dos chamados “wolbitos” em diferentes municípios do país. A estratégia visa complementar as medidas tradicionais de controle vetorial, oferecendo uma solução autossustentável a longo prazo para a redução das arboviroses. Com a produção em escala industrial estabelecida e os resultados consistentes de redução da transmissão viral, o projeto liderado por Luciano Moreira consolida-se como uma das principais frentes de inovação científica brasileira no combate às doenças transmitidas pelo mosquito.



