Você maratona séries? Estudo revela conexão surpreendente com a solidão
Levantamento com 551 adultos indica que escapismo e busca por satisfação emocional motivam o comportamento excessivo diante das telas
O hábito de assistir a diversos episódios de programas de televisão em sequência, popularmente conhecido como maratonar, pode estar diretamente ligado a sentimentos de isolamento social. Uma nova pesquisa conduzida pela Universidade de Huangshan, na China, e divulgada no periódico científico PLOS One, investigou o comportamento de espectadores assíduos. Os dados indicam que indivíduos que consomem conteúdo de forma excessiva apresentam maior probabilidade de vivenciar a solidão, utilizando as produções audiovisuais como uma ferramenta para lidar com questões emocionais ou preencher lacunas sociais, desenvolvendo, em alguns casos, quadros de obsessão e impactos na rotina.
Para chegar a essa conclusão, os autores do levantamento entrevistaram 551 adultos classificados como grandes consumidores de televisão. O critério para essa classificação envolvia assistir a séries por, no mínimo, três horas e meia diariamente e consumir mais de quatro episódios por semana. A análise revelou que 334 participantes, o equivalente a 61% da amostra, preenchiam os requisitos para o diagnóstico de dependência em maratonas. Entre esse grupo específico, notou-se uma correlação significativa: quanto maior o nível de solidão relatado, mais intenso era o comportamento compulsivo diante das telas, uma associação que não foi observada nos espectadores que não apresentavam sinais de dependência.
Fatores emocionais e escapismo
Ao investigar as razões por trás desse consumo desenfreado, os cientistas identificaram mecanismos psicológicos específicos, como o escapismo e a busca por regulação emocional. Os resultados sugerem que as pessoas que passam longas horas em frente à televisão podem estar engajadas em um processo duplo: evitar situações da vida real consideradas negativas e, simultaneamente, tentar intensificar emoções positivas através da narrativa ficcional. Dessa forma, o ato de maratonar deixa de ser apenas entretenimento e passa a funcionar como um mecanismo de fuga ou uma tentativa de satisfação emocional para aqueles que se sentem socialmente isolados.
A pesquisa detalha como a solidão atua como um previsor para o desenvolvimento desse comportamento excessivo, diferenciando o lazer comum de um hábito prejudicial. Em suas considerações finais no artigo, os pesquisadores destacaram a complexidade dessa relação dinâmica entre o espectador e o conteúdo consumido. Conforme escreveram os autores: “Este estudo aprofunda nossa compreensão sobre o hábito de assistir compulsivamente a séries, diferenciando entre formas viciantes e não viciantes, demonstrando que a solidão prevê significativamente o vício em assistir compulsivamente a séries, enquanto o escapismo e a busca por satisfação emocional servem como vias duplas de regulação emocional”.
Alcance e limitações do estudo
Apesar das descobertas relevantes, os acadêmicos ressaltam que o trabalho apresenta limitações importantes que devem ser consideradas na interpretação dos dados. O estudo conseguiu demonstrar uma associação clara entre o comportamento compulsivo e a solidão, mas não estabeleceu uma relação de causa e efeito definitiva, sendo necessárias novas investigações para determinar se o isolamento é a causa primária. Além disso, a análise restringiu-se apenas a séries de televisão, deixando de fora outras plataformas digitais que estimulam o consumo contínuo, como YouTube e TikTok. Ainda assim, o cenário aponta para a possibilidade de que indivíduos utilizem o aumento do consumo de mídia como estratégia para suportar o distanciamento social.



