Cogumelos no sistema de saúde? Entenda como substância alucinógena pode mudar tratamentos mentais
Estudos indicam potencial da psilocibina para saúde mental, mas especialistas pedem cautela quanto aos riscos e aguardam novos dados clínicos
O sistema de saúde pública do Reino Unido enfrenta um debate complexo sobre a possível prescrição de substâncias psicodélicas, especificamente a psilocibina encontrada em cogumelos mágicos, para o tratamento de condições psiquiátricas. Embora atualmente a medicina psicodélica seja ilegal fora de pesquisas autorizadas, novos estudos sugerem que esses compostos podem auxiliar pacientes com *quadro emocional delicado*, transtorno obsessivo-compulsivo e traumas. A discussão envolve médicos, políticos e órgãos reguladores que analisam se os benefícios clínicos superam os riscos associados ao uso dessas substâncias, historicamente restritas e cercadas de estigmas.
Relatos pessoais ilustram a dualidade dos efeitos dessas substâncias no organismo humano. Larissa Hope, que utilizou psilocibina sob supervisão clínica para lidar com traumas antigos e pensamentos sobre *tirar a própria vida*, relatou uma experiência positiva. “Quando experimentei, desatei a chorar”, afirmou ela, descrevendo uma sensação de segurança inédita. Em contrapartida, o pesquisador Jules Evans teve uma reação adversa ao usar LSD recreativamente na juventude, desenvolvendo posteriormente *tensão emocional* social e pânico. “Eu achava que todos estavam falando de mim, me criticando, me julgando”, relembrou Evans, evidenciando os riscos de experiências negativas.
Resultados de testes clínicos
Desde 2022, mais de 20 estudos investigaram o impacto de medicamentos psicodélicos em diversas condições de saúde mental, com resultados mistos, porém promissores em várias avaliações. A empresa de biotecnologia Compass Pathways prepara-se para publicar resultados de um grande teste clínico sobre psilocibina, dados que são aguardados pelo órgão regulador britânico para decidir sobre a flexibilização das restrições atuais. O professor Oliver Howes, do Colégio Real de Psiquiatras, vê as terapias com otimismo, mas ressalta a necessidade de prudência para não superestimar os resultados preliminares antes de uma validação científica robusta e definitiva.
Howes destaca a urgência de novas opções terapêuticas no sistema público, mas mantém o rigor científico necessário para a aprovação de novos fármacos. “Um dos principais alertas é que se trata de algo de que precisamos desesperadamente — mais e melhores tratamentos para transtornos de saúde mental”, explicou o especialista. Ele reforça que, embora os estudos em pequena escala demonstrem potencial, é fundamental obter evidências concretas sobre a segurança. O Colégio Real de Psiquiatras também emitiu relatórios alertando sobre os riscos potenciais, lembrando que o uso sem acompanhamento médico rigoroso pode ser prejudicial à saúde dos pacientes.
Mecanismos de ação rápida
Pesquisas lideradas pelo professor David Nutt, do Imperial College de Londres, sugerem que a psilocibina pode atuar com maior agilidade do que os medicamentos convencionais utilizados atualmente. Segundo Nutt, a substância teria a capacidade de alterar padrões cerebrais de forma mais célere. “Achamos que, em vez de esperar oito semanas para que os antidepressivos desliguem a parte do cérebro associada à depressão, talvez a psilocibina possa fazer o desligamento em questão de poucos minutos”, detalhou o professor. Essa perspectiva de ação rápida coloca os psicodélicos como uma fronteira inovadora na psiquiatria, desafiando as normas estabelecidas desde a proibição dessas substâncias nas décadas de 1960 e 1970.



