Pesquisadores de SP desenvolvem colírio biológico para tratar síndrome do olho seco
Parceria entre USP e Fundação Pró-Sangue busca oferecer tratamento no SUS para pacientes que não respondem a terapias convencionais
Uma iniciativa conjunta entre a Fundação Pró-Sangue Hemocentro de São Paulo e o Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP (FMUSP) investiga uma nova abordagem terapêutica para a síndrome do olho seco. O projeto foca no desenvolvimento de um colírio biológico produzido a partir do sangue do próprio paciente, visando atender pessoas que não apresentam melhora com as lágrimas artificiais disponíveis no mercado. A pesquisa, realizada em parceria com a JP Indústria Farmacêutica S.A., tem como objetivo principal criar uma alternativa viável para distribuição no Sistema Único de Saúde (SUS), ampliando o acesso a tratamentos oftalmológicos complexos. A síndrome, que causa deficiência na lubrificação ocular, tem se tornado mais frequente devido à exposição contínua a telas e poluição, com estimativas apontando que 90% dos jovens entre 18 e 25 anos manifestam algum sintoma.
A composição da lágrima natural humana é complexa, contendo água, sais minerais, proteínas e gorduras essenciais para a proteção e limpeza da estrutura ocular. O novo medicamento busca mimetizar essas características biológicas utilizando o soro sanguíneo do indivíduo, uma vez que as opções sintéticas nem sempre conseguem replicar todas as funções da lágrima original. A proposta dos cientistas brasileiros já foi submetida a pedido de patente e representa um avanço na medicina personalizada, pois utiliza material biológico autólogo para reduzir riscos de rejeição e aumentar a eficácia da lubrificação em casos severos da doença.
Riscos à visão e metodologia
A síndrome do olho seco pode evoluir para quadros incapacitantes se não for devidamente tratada. O hematologista Alfredo Mendrone, um dos coordenadores da pesquisa, alerta para os perigos da condição. “As complicações mais sérias, que afetam diretamente a integridade do olho e a clareza da visão, são inflamação da córnea, erosões e úlceras de córnea, infecções oculares recorrentes, cicatrizes corneanas e perda de visão”, explica o especialista. Além dos danos físicos graves, a doença impacta a qualidade de vida cotidiana, causando fotofobia, visão embaçada e impossibilidade de uso de lentes de contato.
Para a produção do colírio, a equipe desenvolveu um protocolo específico que garante a esterilidade e a estabilidade do produto. O processo envolve uma tecnologia de coleta diferenciada, sem contato com o ar ambiente. Mendrone detalha a técnica empregada: “A partir do próprio sangue do paciente, é utilizada uma bolsa de sangue especial na qual o soro do paciente é separado do sangue e depois diluído com solução fisiológica em sistema fechado, gerando doses individuais diárias para o tratamento por cerca de 60 dias”. O produto final é congelado em flaconetes para preservação e entregue aos voluntários. Segundo o pesquisador, “o mecanismo de ação se baseia no fato de que o soro do sangue contém um concentrado de substâncias muito semelhante aos componentes da lágrima natural saudável”.
Avanço dos testes e patente
Os ensaios clínicos iniciais apresentaram resultados promissores para a validação da terapia. Até o momento, o colírio foi administrado a 14 pacientes, sendo que 11 obtiveram resposta satisfatória ao tratamento. Três participantes não apresentaram a evolução esperada, fato atribuído à presença de doenças autoimunes ativas nesses indivíduos. A meta atual dos pesquisadores é expandir o grupo de estudo para 40 voluntários, número necessário para estabelecer uma base estatística sólida que comprove a segurança e a eficácia do método. A consolidação desses dados é etapa fundamental para a futura aprovação regulatória e disponibilização do colírio na rede pública de saúde.



