Ministério da Saúde decide não incluir vacina contra herpes-zóster no SUS
Decisão afeta idosos e imunocomprometidos; custo de R$ 5,2 bilhões inviabilizou a medida, segundo análise da Conitec
O Ministério da Saúde oficializou a decisão de não incorporar a vacina contra o herpes-zóster ao Sistema Único de Saúde (SUS). A determinação foi publicada no Diário Oficial da União em 12 de janeiro, após avaliação da Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no Sistema Único de Saúde (Conitec). O imunizante analisado, do tipo recombinante adjuvado, era pleiteado para idosos com 80 anos ou mais e para adultos imunocomprometidos a partir de 18 anos. A comissão técnica, responsável por verificar a viabilidade de novas tecnologias na rede pública, concluiu que a inclusão não seria favorável neste momento, embora a portaria deixe aberta a possibilidade de uma nova análise futura caso surjam fatos que alterem o cenário atual.
A doença, popularmente chamada de cobreiro, decorre da reativação do vírus varicela-zóster, o mesmo causador da catapora, que permanece latente no organismo e pode voltar a se manifestar com o envelhecimento ou queda da imunidade. O imunizante disponível no Brasil é considerado um avanço tecnológico significativo em comparação às versões anteriores. Renato Kfouri, infectologista e vice-presidente da Sociedade Brasileira de Imunizações, esclarece a evolução do medicamento: “A vacina recombinante mudou esse cenário: ela tem eficácia em torno de 90%, independentemente da idade, inclusive no idoso.” Além das lesões cutâneas, a condição preocupa devido ao risco de neuralgia pós-herpética, uma dor crônica que pode persistir por longos períodos.
Estudos recentes sobre benefícios cardiovasculares
Pesquisas observacionais recentes têm investigado se a prevenção da doença pode gerar benefícios secundários à saúde. Uma meta-análise apresentada no Congresso Europeu de Cardiologia em 2025 indicou que vacinados tiveram menor incidência de eventos como infarto e acidente vascular cerebral (AVC). Outro levantamento, publicado na revista Nature, apontou uma frequência menor de diagnósticos de demência em imunizados. Sobre essa relação biológica, Kfouri pondera: “O herpes-zóster é uma doença inflamatória, e sabemos que inflamação repetida ao longo dos anos pode contribuir para outros desfechos de saúde.” Contudo, especialistas reforçam que tais achados ainda não alteram as indicações formais do imunizante.
Apesar do reconhecimento da eficácia clínica, a barreira para a entrada no sistema público foi estritamente financeira e estratégica. O Brasil lida com múltiplas demandas no Programa Nacional de Imunizações, como dengue e vírus sincicial respiratório, o que exige uma hierarquização de prioridades diante de recursos finitos. Renato Kfouri explica que o problema não reside na qualidade do produto, mas na análise econômica: “A discussão não é se a vacina funciona —ela funciona muito bem. O ponto central é custo-efetividade, impacto orçamentário e como hierarquizar prioridades dentro do Programa Nacional de Imunizações”.
Impacto orçamentário e disponibilidade na rede privada
O Ministério da Saúde divulgou que a incorporação do imunizante traria um peso financeiro desproporcional ao orçamento atual. Segundo a pasta, “a estimativa indicou um impacto orçamentário superior a R$ 5,2 bilhões em cinco anos”. Para contextualizar, esse valor supera o custo total de todos os medicamentos distribuídos pelo Programa Farmácia Popular no ano anterior, que somaram R$ 4,2 bilhões. Atualmente, a vacina permanece disponível apenas na rede privada, onde o esquema completo de duas doses pode custar até R$ 2.400. O governo federal informou que mantém interesse na tecnologia e seguirá em negociação com o laboratório fabricante para buscar um preço compatível com a realidade do sistema público.



