O motivo que faz vítimas de violência contra a mulher não denunciarem agressões
Levantamento do instituto Datafolha detalha como o medo e a falta de amparo institucional dificultam a busca por proteção no Brasil.
Um levantamento do instituto Datafolha indicou que 89% dos brasileiros notaram crescimento nos casos de violência contra a mulher no último ano. O estudo demonstra que as vítimas enfrentam um obstáculo na busca por amparo, caracterizado pela falta de credibilidade nas autoridades de segurança e no sistema judiciário.
Somente 17% do público feminino afirma ter muita confiança na Justiça, e 19% relatam o mesmo sobre a polícia. Entre os homens, os índices sobem para 23% e 31%. O cenário se consolida ao observar que 63% das entrevistadas declaram confiar pouco na resposta do Estado diante de agressões.
Dados do Datafolha sobre violência contra a mulher
A diretora do Movimento Mulher 360, Margareth Goldenberg, explica o contexto. “Os dados mostram que a pauta sobre violência contra a mulher deixou de ser percebida como tema privado ou tema feminino. Virou questão central de segurança pública e social. A decisão de denunciar uma violência costuma ser extremamente complexa. Ela envolve medo, dependência emocional, dependência financeira, preocupação com os filhos, vergonha e, muitas vezes, receio de represálias. Mas, quando a mulher também não acredita que será acolhida, protegida ou que terá uma resposta efetiva das instituições, a barreira para buscar ajuda se torna ainda maior”, afirmou. Ela completa: “Muitas mulheres sentem vergonha, culpa e medo de serem julgadas quando sofrem violência. Frequentemente escutam perguntas como ‘Por que não saiu antes?’, ‘Por que continuou nesse relacionamento?’ ou ‘Como não percebeu?’. Isso dificulta a denúncia, reduz a procura por ajuda e contribui para o silêncio”.
O estudo aponta que 37% das cidadãs que relataram ter sofrido agressão grave não adotaram nenhuma medida formal. Além disso, 71% dos participantes do levantamento consideram que o público feminino está mais exposto a riscos dentro do próprio lar do que nas ruas.
Normalização de abusos contra a mulher no Brasil
A pesquisa mapeou a compreensão social sobre atos abusivos. Quase metade (45%) não enxerga como problema o parceiro proibir a companheira de sair sozinha, 41% não veem gravidade no controle de amizades e 42% relativizam o domínio sobre o salário. Em contrapartida, 94% classificam a humilhação pública como violação. O levantamento, que ouviu 2 mil pessoas, revelou ainda que 61% dos entrevistados responsabilizam as escolhas das próprias vítimas pelos episódios.



