O que a ciência acaba de descobrir sobre a domesticação de cavalos muda tudo
Pesquisa arqueológica demonstra que comunidades da Eurásia já montavam e ordenhavam os animais séculos antes da expansão da linhagem genética DOM2
Uma pesquisa publicada na revista científica Science Advances redefiniu a cronologia sobre a domesticação de cavalos. O estudo indica que o manejo organizado desses animais começou no 4º milênio a.C., um período consideravelmente anterior à data estabelecida como o marco inicial do processo. Até então, os cientistas associavam a domesticação completa ao intervalo entre 2200 e 2100 a.C., época caracterizada pela rápida expansão territorial dos equinos pertencentes ao grupo genético conhecido como DOM2.
Os animais da linhagem DOM2 possuíam maior resistência física e um comportamento dócil, características que facilitaram sua disseminação pela Europa, Anatólia, Oriente Próximo e Ásia Central. Contudo, a nova análise propõe que a integração da espécie ao cotidiano humano não resultou de uma mutação genética abrupta. Evidências arqueológicas e o sequenciamento de DNA antigo demonstram que as comunidades da Eurásia já administravam os equinos por várias gerações antes de a linhagem predominante se consolidar.
Evidências arqueológicas sobre os cavalos e o povo Yamnaya
Os dados coletados revelam que grupos genéticos distintos, como DOM1, DOM2 e DOM3, já faziam parte da rotina das populações antigas muito antes de 2200 a.C. Nesses assentamentos primitivos, os animais eram utilizados para a extração de leite, montaria, rituais específicos e também como fonte de alimentação. O estudo destaca que os indivíduos da cultura Yamnaya, que habitaram a região aproximadamente entre 3200 e 2600 a.C., são os prováveis pioneiros na prática da montaria, utilizando a mesma linhagem associada aos equinos modernos.
A introdução da montaria gerou uma transformação estrutural na mobilidade das populações que habitavam as estepes eurasianas. Enquanto os veículos com rodas tracionados por gado apresentavam um deslocamento lento, exigindo dias para cobrir longas distâncias, a utilização dos equinos permitiu que os mesmos trajetos fossem realizados em poucas horas. Essa aceleração no ritmo das viagens facilitou a comunicação entre regiões distantes e está diretamente associada à propagação das línguas proto-indo-europeias, transportadas por esses povos migratórios.
Pesquisador Volker Heyd explica a evolução do manejo de equinos
O professor Volker Heyd, um dos autores principais do levantamento, explicou que o extenso período entre a utilização inicial da espécie e as alterações genéticas subsequentes reformula o entendimento clássico sobre o tema. O processo ocorreu de maneira gradual, envolvendo séculos de convivência direta, reprodução seletiva e adaptação mútua. Historicamente, essa relação tornou-se um pilar para o desenvolvimento de diversas civilizações, permitindo que povos como mongóis, hunos e magiares realizassem grandes deslocamentos territoriais e conquistas.



