
Estamos vivendo a era da superficialidade. Passamos o dia consumindo informação de todo tipo em excesso, mas sem paciência e sem foco pra nada. A sensação de uma abundância infinita nos tirou a capacidade de passar alguns minutos do dia para ouvir música como há alguns anos atrás.
Outro dia me peguei tentando ouvir um álbum inteiro, do começo ao fim, como fazia. E antes que a primeira faixa terminasse já estava ansioso para ver a próxima sugestão do algoritmo.
Sim. Eles nos controlam. Os algoritmos nos conhecem tanto que nos ditam os caminhos para onde vamos. É difícil prever se em algum momento iremos recuperar nossa capacidade de apreciar algo sem a expectativa da próxima novidade.
Não se trata de demonizar tecnologia, longe disso. Mas quando tudo está disponível, a um clique de distância, passamos a consumir mais mas sentir menos. A música sempre teve esse poder de resistir ao tempo e às tendências. E hoje tudo parece ser tão descartável, tão efêmero.
Pode ser que as novas gerações se cansem de todo esse excesso e queiram descobrir como era possível ter acesso a apenas algumas dezenas de discos e ficar revezando entre eles.
As plataformas de streaming democratizaram o acesso, também permitiram que artistas divulguem seus trabalhos e tudo isso é muito positivo. Mas o que é frustrante para quem sempre foi amante da boa música é que não existe nenhum critério de qualidade para a escolha dos artistas indicados. E não estou aqui falando de gosto musical, isso é subjetivo. Mas saber diferenciar entre uma música boa ou ruim não é tão difícil assim.
Isso vai criando uma categoria de “compositores” que está mais interessada em performar nas redes do que realmente produzir música. No fim, quem dita o sucesso não é só o público, mas um sistema que prioriza o que é mais fácil de consumir e descartar, não o que é mais interessante de ouvir e apreciar.
Marcus Caetano Designer gráfico e baterista nas horas vagas



