Quaresma, Ramadã e perspectivas de mudança interior em tempos de guerra
Crônica sobre paz e guerra
Gustavo Uchôas Guimarães, é professor nas cidades de Elói Mendes e Varginha na área de história, conta com vários livros publicados entre história, poesia e outros gêneros. É vice-presidente da Associação de poetas e escritores do Sul de Minas (Apesul) e membro da Acadêmia de letras e ciências de Varginha a AVLAC.
Em 2026, os períodos da Quaresma e do Ramadã coincidem (o que não ocorria desde 1863), ambos com a proposta de conversão aos fiéis que guardam esses períodos. A Quaresma é um tempo forte de grande importância para os católicos, ortodoxos, anglicanos e luteranos; o Ramadã é um tempo forte de igual importância para os muçulmanos de todas as vertentes (sunitas, xiitas, entre outros). Na Quaresma cristã, lembra-se os 40 dias em que Jesus ficou no deserto (Mateus 4,1-2), sentindo fome e sendo tentado pelo diabo antes de iniciar oficialmente seu ministério de pregações, curas e milagres, além de lembrar também os 40 dias de Moisés no Monte Sinai (Êxodo 34,28) e os 40 anos do povo hebreu no deserto até a conquista de Canaã; no Ramadã muçulmano, ocorre 30 dias de jejum em que os fiéis nada podem comer nem beber do nascer ao pôr-do-sol (Alcorão, surata 2, versículos 183-185). No caso da Quaresma, autores como Santo Atanásio e Santo Agostinho destacam a prática entre os católicos nos primeiros séculos da Igreja; no caso do Ramadã, as tradições proféticas (hadiths) destacam a prática do jejum por Muhammad e como essa prática fortaleceu a identidade muçulmana em seus primeiros tempos.
Em época de guerras como a atualidade – mencione-se, a título de exemplos, os conflitos envolvendo Estados Unidos e Israel contra o Irã, os bombardeios que Israel continua fazendo em Gaza, os enfrentamentos entre Rússia e Ucrânia, além dos conflitos na Somália, Iêmen, República Centro-Africana, entre outros –, as mentes mais pessimistas pensam em um fracasso da humanidade. Cada criança ou mulher morta, cada vila ou cidade destruída, cada escola ou maternidade atacada, tudo isso traz um sentimento de impotência e de indignação naqueles que, por utopia ou por fé ou por qualquer outro sentimento, acreditam que os seres humanos podem melhorar e evoluir. Nesse contexto, a Quaresma e o Ramadã, cada um a seu modo e com suas bases e crenças, propõem importantes reflexões para que a humanidade desperte e faça seu caminho de forma diferente.
Do ponto de vista do autodomínio, a Quaresma propõe que cada um deve assumir sua cruz e renunciar a si mesmo (Mateus 16,24), exercitando a renúncia de si mesmo pelas práticas da oração, do jejum e da caridade (Mateus 6,1-6.16-18); o Ramadã, na mesma linha, propõe que o praticante alcance a piedade, inclusive pela prática de alimentar o pobre (Alcorão, surata 2, 183-184). Isso tem a ver com o adiamento do prazer em um mundo que oferece, compulsivamente, a gratificação instantânea e individualista.
Da perspectiva da solidariedade (um dos pilares da Quaresma – Mateus 6,3-4 – e do Ramadã – Alcorão 2,184), tanto o período quaresmal quanto o Ramadã pregam a conexão da carência do fiel com a carência do próximo. Assim, fazer jejum é uma forma de nos tornarmos sensíveis às vulnerabilidades alheias: na Bíblia, o profeta Isaías declara que o jejum agradável a Deus é repartir o pão com o faminto (Isaías 58,7); no Alcorão, declara-se que a verdadeira retidão é dar daquilo que se ama (Alcorão 3,92).
E do ponto de vista da conversão, a Quaresma lembra aos cristãos que esse período é de silêncio e deserto, tal como Jesus fez antes de começar a pregar (Mateus 4,1-2); o Ramadã lembra aos muçulmanos que esse período é de introspecção para receber a Palavra descida do céu, uma Palavra que, na “Noite do Decreto”, traz paz (Alcorão 97,5).
O que tudo isso tem a ver com as guerras no mundo atual? Cristãos e muçulmanos – os de boa vontade, abertos ao agir divino proporcionado pela Quaresma e pelo Ramadã, sem se prenderem apenas a uma aparência de conversão – são chamados, cada um em suas práticas próprias de jejum, oração e caridade, a se posicionarem contrários aos rumos de fracasso nos quais a humanidade caminha. As guerras nascem de egos inflados (como pode ser visto, por exemplo, em declarações de Donald Trump em sua atualização da Doutrina Monroe) e de visões que colocam o capital, as armas, os nacionalismos fanáticos e as supostas “eleições divinas” acima da vida e da dignidade humana. Interpretações fanatizadas e distorcidas do cristianismo e do islamismo têm também contribuído para as animosidades que se mostram nos campos político, econômico e social, contrariando totalmente aquilo que a Quaresma propõe aos cristãos e o Ramadã aos muçulmanos.
Que, no mundo atual, haja pessoas, mesmo que poucas, capazes de ser fermento (usando uma analogia cristã) que faz crescer uma cultura de paz, na linha do que Jesus, aos seus discípulos, e Muhammad, também aos seus, ensinavam sobre o autocontrole, sobre ser o primeiro a parar o golpe e quebrar a lógica do “olho por olho”: “Não resistais ao homem mau; antes, àquele que te fere na face direita, oferece-lhe também a esquerda” (Jesus, em Mateus 5,39-40); “Deixo-vos a paz, minha paz vos dou; não vo-la dou como o mundo a dá” (Jesus, em João 14,27; a paz “do mundo” é a trégua armada, sempre pronta a retomar os confrontos, e a paz “de Jesus” é uma condição que leva o ser humano a agir com lucidez onde outros agem com fúria); “A pessoa que observa o jejum […] não deve se comportar de maneira tola e impudente” (Muhammad, no hadith Bukhari, volume 3, livro 31, número 118); “O forte não é aquele que derruba o outro na luta, mas o forte é aquele que controla a si mesmo no momento da raiva” (Muhammad, em Sahih al-Bukhari, 6114). Esses ensinamentos vêm ao encontro da voz que ecoa do profetismo judeu, quando o profeta Amós declarou aos governantes de seu tempo (século VIII a.C.) e grita aos de hoje (especialmente aos que usam o nome de Deus para matar, destruir, invadir): “Eu odeio, eu desprezo as vossas festas e não gosto de vossas reuniões. […] não me agradam as vossas oferendas […]. Que o direito corra como a água e a justiça como um rio caudaloso! […] Vós, porém, transformastes o direito em veneno e o fruto da justiça em absinto.” (Amós 5,21-22.24; 6,12).
Para ler mais:
https://oislam.org/controlar-a-raiva-entre-a-neurociencia-e-o-islam/
https://www.sahih-bukhari.com/Pages/Bukhari_3_31.php
https://formacao.cancaonova.com/espiritualidade/quaresma-tempo-de-conversao/
https://icarabe.org/artigos/fatwa-de-ama-representa-reviravolta-no-mundo-islamico/



