Escrever pode ser uma arma, um ato de resistência. Resistência da existência de toda
uma vida. Qualquer pessoa pode falar de escrita e resistência, mas aqui falarei como
mulher, me apresentando como fruto de uma linhagem, linguagem e experiência, que
me conecta e, por vezes, me desconecta de outras de nós.
Escrever parece ser algo bastante acessível às mulheres hoje em dia, e isso não é
pouco, visto que em nossa história, muito da vida, da ciência e de nós mesmas – o que
é inacreditável – nos foi interditado, incluindo o direito de expor os pensamentos num
papel.
Quando eu digo que a escrita se tornou acessível, isso não ocorreu de forma
simultânea em todas as partes do globo. A alfabetização das mulheres, na maior parte
do mundo, foi bastante posterior à masculina e mesmo no século XXI, a cada três
analfabetos, dois são mulheres. No Afeganistão, sessenta por cento das meninas não
estudam, de acordo com dados de 2023 divulgados pela Unesco.
E também no Brasil atual essa acessibilidade ganha diferentes métricas em seus
variados contextos. Clarice Lispector, Ana Cristina César, Alice Ruiz, Hilda Hilst e
tantas outras, certamente venceram muitos desafios ao decidirem se dedicar à escrita,
mas outras como Carolina Maria de Jesus, Conceição Evaristo e Tula Pilar, tiveram
muito mais impedimentos. Venceram como exceção.
De outro ponto de vista, quantas de nós gostaríamos de escrever, mas não nos
sentimos autorizadas? O que nos impede? Autocrítica, autodepreciação, medo,
insegurança? Quantas de nós que escrevemos não o fazemos sentindo culpa por
estarmos “deixando de lado” nosso ofício principal, nossos “entes queridos” e “afazeres
domésticos”, para ficarmos “à toa” estudando, lendo ou escrevendo? Cada caso é um
caso, sim, mas em todos a resistência se faz presente.
É preciso resistir às tentações e pressões do mundo e da própria família, às obrigações
e protocolos, para realizar o simples ato de escrever. É preciso resistência para
transpormos ao papel o que tanto nos atormenta a nós, aos nossos, ao mundo. É
preciso que as mulheres se desprendam do que se espera delas para que seus pontos
de vista estejam demarcados como ser pensante e atuante, afinal, hoje os lares
brasileiros comandados por mulheres somam quase 52%.
Escrever é ainda uma forma de nos colocar e nos revelar enquanto bruxas, de nos
deixar queimar pelas fogueiras dos preconceitos sociais, linguísticos e midiáticos, seja
porque temos a coragem de denunciar as violências que nos atravessam, seja por
narrar nossos amores, aventuras e prazeres de todas as ordens, prática reservada,
tradicionalmente aos homens.
Por uma questão de diversidade, sempre haverá quem não utilize sua voz como
profissão ou mesmo enquanto garantia de seus direitos, felizmente, cada vez mais
temos quem nos represente e conte nossa história a partir de nosso lugar. Assim,
mesmo que não peguemos um lápis como a arma de defesa que é, teremos sempre
outras mãos e vozes a quem poderemos nos unir.
Girlene Verly é escritora, poeta e dançaterapeuta nascida em Araruama, RJ, há anos morando no interior de Minas. É graduada, mestre em Letras pela UFSJ e doutora em Literatura Comparada pela UFMG. Já publicou em jornais, revistas literárias e antologias. Em 2023 lançou “O corpo sabe que é terça”, mas se distrai”, pela Editora Folheando e em 2024 “Dança de samambaias”, pela Editora Patuá. Instagram: @autora_verly




