“O corpo é um portal que, simultaneamente, inscreve e interpreta, significa e é significado,
sendo projetado como continente e conteúdo, local, ambiente e veículo da memória.”
Leda Maria Martins (professora, escritora e pesquisadora sobre corpo e ancestralidade)
Nossa primeira casa da vida e a que teremos para sempre é a nossa casa-corpo. Uma
casa com seus alicerces e sustentações, com entradas, saídas, uma casa em que se
dá e se recebe, um lar iluminado, animado com sons, cheiros e imagens.
Somos nossa própria casa e por isso temos uma casa viva, aparentemente dividida
entre o funcional e o emocional. Um lugar projetado para ser ao mesmo tempo
máquina e aconchego, charme e caos. Um lugar não-lugar, um espaço-tempo para ser
e estar, delimitado e ao mesmo tempo, sem limites. Uma casa quase autossuficiente,
capaz de se comunicar e até se multiplicar.
Uma máquina inteligente que não aceita o excesso, em que tudo que é desnecessário
é posto para fora. Uma casa que necessita de alimentos de qualidade, em que todos os
cômodos, cantos, curvas, becos e acessórios têm suas funções, ainda que decorativas
ou para registro de nossas atividades.
Nossa casa é um artigo de excelência idealizado para acolher, aquecer e proteger seu
dono e seus convidados. Um objeto pessoal e ao mesmo tempo comunitário que
necessita de reformas eventuais, com portas e janelas livres e arejadas, que precisa de
um piso estável, paredes suficientemente flexíveis para nos abrigar dos ventos e
tempestades.
Mas por que nosso corpo-casa só necessita dos pés como ponto de contato com a
Terra? Por que todos os outros “cômodos” parecem livres?
Gosto de pensar que seja para mostrar que o contato com a realidade terrena não
pode ser esquecido e nem negligenciado, pois da terra viemos e para ela voltaremos.
Vale apontar que esse limite imposto pela gravidade, não nos aprisiona. Já o restante
do corpo não precisaria de contato com a terra, justamente porque deveria se atentar a
sua vocação para a liberdade. Um convite para usar o corpo como bem entendermos, a
fim de favorecer a expressão, a expansão e o movimento, nessa casa que também é
uma viagem.
Girlene Verly é escritora, poeta e dançaterapeuta nascida em Araruama, RJ, há anos morando no interior de Minas. É graduada, mestre em Letras pela UFSJ e doutora em Literatura Comparada pela UFMG. Já publicou em jornais, revistas literárias e antologias. Em 2023 lançou “O corpo sabe que é terça”, mas se distrai”, pela Editora Folheando e em 2024 “Dança de samambaias”, pela Editora Patuá. Instagram: @autora_verly




