Governo argentino cria órgão digital para rebater críticas da mídia
Iniciativa busca apontar supostas falsidades em notícias e segue modelo adotado por Donald Trump nos Estados Unidos
O presidente da Argentina, Javier Milei, anunciou na quinta-feira a criação do Escritório de Resposta Oficial da República Argentina. A iniciativa consiste em um perfil na rede social X destinado a contestar publicações de meios de comunicação que a atual gestão considera incorretas. A medida representa mais um capítulo na relação tensa entre o mandatário e os veículos de imprensa locais, marcada por um histórico de processos judiciais, insultos públicos e o uso frequente de slogans contra o jornalismo profissional.
Ao divulgar a ferramenta, Milei declarou em sua conta pessoal que o objetivo é agir “Para desmascarar mentiras e operações da mídia. Fim”. A primeira postagem do novo perfil governamental detalha que a conta “foi criada para desmentir ativamente a mentira, sinalizar falsidades concretas e deixar em evidência as operações da mídia e da casta política”. O comunicado inaugural afirma ainda que a estratégia visa combater a desinformação fornecendo mais dados, alegando que o direito à liberdade de expressão permanece resguardado e que a intenção é auxiliar os cidadãos a distinguir fatos de narrativas.
Reações e alerta de vigilância
A Associação de Entidades Jornalísticas Argentinas (Adepa) manifestou preocupação imediata com o lançamento do canal oficial. Em comunicado, a entidade ressaltou que “O Estado, em todo o caso, é mais uma fonte de informação, não o árbitro da verdade pública”. A organização advertiu sobre o risco de que ferramentas institucionais com essa natureza acabem funcionando como “mecanismos de vigilância” sobre o trabalho da imprensa, o que poderia comprometer a pluralidade do debate público no país vizinho.
O primeiro alvo da nova conta foi uma reportagem do jornal Clarín sobre um programa do Ministério de Capital Humano. O episódio ocorre em um contexto onde a Human Rights Watch aponta uma retórica hostil do governo para “estigmatizar os jornalistas”. Desde o início de seu mandato, em dezembro de 2023, Milei tomou decisões drásticas no setor, como o fechamento da agência pública de notícias Télam e a suspensão de publicidade estatal, além de classificar grande parte dos profissionais da área como “jornalistas lixo”.
Influência política norte-americana
A estratégia adotada pela Casa Rosada assemelha-se a táticas utilizadas nos Estados Unidos. O governo de Donald Trump, de quem Milei é aliado declarado, lançou recentemente o portal Media Bias com o intuito de expor o que classifica como notícias falsas. Até o momento, a administração argentina não forneceu detalhes operacionais sobre o novo escritório, como a identidade dos administradores da conta ou se haverá a criação de uma estrutura burocrática formal dentro do governo para gerenciar as publicações.



