Opinião

A incidência da depressão em mulheres na contemporaneidade e a contribuição da Psicanálise

Texto da Aline Thais Guedes

Quando pensamos em depressão a reputamos como “frescura”, por vezes vem sendo incompreendida até mesmo para quem apresenta estados deprimidos. Conceituada na psiquiatria moderna como doença crônica, a depressão afeta diversas pessoas, principalmente as mulheres. O sexo feminino desenvolve maior vulnerabilidade e suscetibilidade comparadas ao sexo masculino uma vez que, vários fatores colaboram para que esse incremento aconteça, como: violência doméstica, transtorno de Burnout, desigualdade de gênero, distúrbios hormonais e muitos outros que não sendo devidamente tratados acaba com os existir da pessoa deprimida. 

Segundo a organização mundial de saúde (OMS) alerta que mais de 280 milhões de pessoas vivem com transtornos mentais, sendo cerca de 5,1% em mulheres e 3,6 % em homens, tendo em vista que nem todas as pessoas afetadas procuram auxílio. O Brasil é o país com maior prevalência de depressão na América Latina abrangendo pessoas de todas as idades e nível de renda. De acordo com os dados estatísticos revelam maior exposição de incidência da depressão nas mulheres. Com o aumento dos casos de depressão o uso de intervenções medicamentosas também sofreu alterações, o consumo de medicamentos para ansiedade e antidepressivos multiplicou. Nos últimos dois anos o país registrou o aumento nas vendas de 18,6% entre 2022 e 2024, essa análise foi realizada pela Sandbox (empresa especializada no setor de saúde). 

Na sociedade contemporânea o capitalismo utiliza muitos recursos para a aceleração na vida do indivíduo, interferindo nas relações estimulando a competitividade entre os indivíduos permitindo que a insatisfação, aborrecimentos e a culpa aconteçam. Para a psicanálise a depressão está relacionada com perda ou falta, falta do desejo, recolhimento da libido, é o recuo de manifestos que para agradar o outro, o sujeito acaba desenvolvendo o vazio e neurose de angústia. O indivíduo produz uma atividade psíquica apática ao lidar com o mundo externo e no sexo feminino o ego e superego é aflorado por um padrão interno extremamente rígido alimentado pela cultura. 

A soma do desgaste psíquico nas mulheres causa inúmeros malefícios que se acumulam em forma de neurose, despertando o gatilho do desequilíbrio acrescentado com fatores psicossociais. A depressão pós-parto, tensão pré menstrual são alguns dos acontecimentos que justificam a vulnerabilidade aguçada no sexo feminino, propiciando o mal funcionamento psíquico. Na construção da mente psíquica, segundo Lacan o inconsciente como sendo uma estrutura de linguagem, apresenta uma grande importância para o processo do entendimento do indivíduo depressivo, uma vez que contribui de forma significativa para análise do discurso. “A psicanálise não é somente um método terapêutico, mas também um método de investigação” Gratton, 1967 

Segundo Herrmann, a evolução psicossexual começa na fase infantil, todavia, levará a criança vagarosamente a modos mais compreensíveis da atividade mental. Já a concepção de Klein, é que na primeira infância se desenvolve o emocional do sujeito, quando o bebê percebe a mãe como pessoa e que está sendo separada dele, levando o bebê a desenvolver uma série de conflitos como: angústia, perda, medo. Para Freud, a depressão está ligada a um passado distante evidenciando a melancolia, que no século XIX era associada como doença mental. É importante ressaltar sobre o complexo de Édipo, como um organizador da personalidade, uma fase que perpassa na vida da criança e que mal estabelecida causa transtornos psicopatológicos. 

No filme Garota, interrompida de 1999 a protagonista Susanna Kaysen, era uma adolescente de 18 anos que tenta tirar sua própria vida, vida essa repleta de conflitos. É internada em uma clínica psiquiátrica e diagnosticada com transtorno de personalidade borderline, Susanna permite esse acolhimento clínico. No início do filme podemos perceber a abordagem da psicanálise, na cura pela fala (associação livre) e a partir disso Susanna convive com garotas da sua idade que também apresentam distúrbios comportamentais. O filme aborda temas importantes para o conhecimento dos transtornos mentais, trazendo em seu contexto ricos detalhes no debate as questões que permeavam na década de 60, contextualizando os problemas daquela época. Aborda temas como a luta antimanicomial, internações, suicídio, medicalização e outras experiências dos momentos do indivíduo depressivo. 

Considerando o aumento de diagnósticos de depressão como uma das formas de adoecimento nos tempos atuais, acometendo principalmente as mulheres, a psicanálise contribui para a compreensão dos aspectos que envolvem os mecanismos de defesa do sujeito. No entanto vale ressaltar que dependendo da gravidade de alguns casos, o indivíduo recorra a outros tipos de tratamentos, como psiquiatria, psicologia e uso de medicações, porém todo e qualquer diagnóstico e realizado por prescrição médica. 

Privilegiando a coletividade Freud dispôs de muitas pesquisas e recursos para compreender a mente humana ao longo da sua trajetória e para a contemporaneidade a prática psicanalítica vem sendo um grande desafio. No decorrer dos anos houve uma série de transformações, bem como a multiplicidade de métodos terapêuticos, aceleração social e entre outras modificações que levam o indivíduo a busca de resultados rápidos, impedindo sua criatividade psíquica. Segundo Herrmann a missão da psicanálise é apresentar ao sujeito o absurdo que o constitui e, se possível ampará-lo e reconciliar- se com esse absurdo, e consigo mesmo. 

Foto: Aline Thais Guedes

Aline Thais Guedes, nascida em 15 de julho de 1983, em Varginha (MG), é técnica em Análises Clínicas e atua no Hospital Bom Pastor, no município de Varginha. Com sólida experiência na área da saúde, dedica-se ao cuidado e à precisão no apoio aos diagnósticos laboratoriais.

Além da atuação profissional, Aline aprecia a leitura, caminhadas e momentos de lazer com amigos. Demonstra especial interesse pela Psicanálise, área que complementa sua visão humanizada sobre o cuidado com as pessoas e o desenvolvimento pessoal.

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