
Poesia de Edward Lustosa Boggiss é ator, diretor, produtor, autor e educador social, assistente social, tendo passagens pelo teatro e grandes emissoras de TV, como a Rede Globo e a Record.
Responsabilidade é reconhecer
em si mesmo o agir e o escolher,
é saber que viver, em sua essência,
exige resposta, presença e consciência.
Responder pelo feito e pelo omitir,
pelo que se aceita, pelo que se permite existir;
é carregar, no íntimo, a verdade vivida:
somos autores da própria medida.
Responsabilizar o outro, por sua vez,
é deslocar o que em nós se fez;
é lançar fora aquilo que é interno,
negando o próprio governo.
Diga então, sem engano ou vaidade:
há outro responsável pela nossa realidade?
Responsabilizar o outro é ser irresponsável,
é tornar o próprio ser instável;
irresponsabilidade é ser leviano consigo,
fugindo de si, tornando-se inimigo.
Leviandade é ao outro culpar,
é de si mesmo se afastar;
pois ao transferir a causa da ação,
negamos o encontro e calamos a razão.
Responsabilizar o outro é ser infiel,
é romper consigo um laço fiel;
infidelidade é ser imprudente no sentir,
é saber e, ainda assim, não cumprir.
Imprudência é ao outro lançar,
o peso que nos cabe sustentar;
pois negar a própria direção
é trair a íntima convicção.
Responsabilizar o outro é ser precipitado,
é viver por dentro descompassado;
precipitação é ser inconstante no ser,
é começar sem conseguir manter.
Inconstância é ao outro atribuir,
o que em nós deixou de persistir;
pois ao não sustentar a própria escolha,
busca-se fora o que em si não se acolha.
Responsabilizar o outro é ser superficial,
é viver na margem do essencial;
superficialidade é conflito interior,
é fugir de si com disfarce exterior.
Conflito é ao outro culpar,
o que em nós insiste em falar;
pois ao evitar o encontro profundo,
projetamos no outro o peso do mundo.
Responsabilizar o outro é não existir,
é de si mesmo se dividir;
inexistir é não ser presença,
é perder de si a própria essência.
Não ser é ao outro entregar
o que só em si pode habitar;
e assim, ao negar a própria verdade,
vive-se à sombra, sem identidade.
Não viver é, aos poucos, se anular,
é deixar de ser, é se apagar;
e nessa ausência, dura e extrema,
não há outro autor do próprio problema.
Falhar consigo é negar a existência,
é romper com a própria consciência;
viver, portanto, mais que um ato ou vontade,
é assumir-se por inteiro — responsabilidade.



