Política

Pesquisadores localizam local exato de simulação contra Vladimir Herzog no antigo DOI-Codi

Investigação arqueológica e arquitetônica encontrou vestígios escondidos por reformas no prédio que abrigou o centro de operações da ditadura em SP.

Mais de cinco décadas após o ocorrido, um estudo detalhado conduzido pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) conseguiu identificar o local exato onde o regime militar encenou a falsa versão sobre o fim da vida do jornalista Vladimir Herzog. O trabalho reuniu historiadores, arqueólogos e arquitetos especializados em espaços de memória para analisar a estrutura do antigo Destacamento de Operações de Informações – Centro de Operações de Defesa Interna (DOI-Codi). Através de escavações e análises técnicas, a equipe localizou evidências materiais que coincidem com os registros fotográficos utilizados na época para sustentar a narrativa oficial de que o jornalista teria tirado a própria vida.

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A investigação revelou que, embora o edifício tenha passado por reformas estruturais na década de 1980 para abrigar o Instituto de Criminalística, elementos fundamentais permaneceram preservados sob camadas de intervenções posteriores. Os pesquisadores encontraram remendos nas paredes que correspondem aos pontos de fixação da grade da janela vista na imagem histórica, além de vestígios do piso original de tacos que havia sido recoberto por material vinílico. Segundo os especialistas envolvidos na perícia espacial, a convergência entre os elementos físicos encontrados, como o local da caixa do ferrolho e as dobradiças da porta, e a documentação histórica permite afirmar com segurança que a farsa foi montada naquele recinto específico.

Evidências materiais e preservação da memória histórica

Vladimir Herzog, que atuava como diretor de jornalismo da TV Cultura e era defensor da democracia, compareceu voluntariamente ao DOI-Codi em 25 de outubro de 1975 para prestar esclarecimentos. Horas após sua entrada na unidade, sua morte foi comunicada sob a alegação de suicídio. No entanto, a nova perícia reforça o entendimento de entidades de direitos humanos de que a cena foi forjada para ocultar as consequências de sessões de tortura. De acordo com Deborah Neves, coordenadora do grupo de trabalho do Memorial DOI-Codi, “claramente não é uma cena de suicídio, e sim uma encenação para ocultar uma morte sob tortura”, o que desmente a versão propagada pelo regime na década de 1970.

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A repercussão da imagem de Herzog na época gerou uma mobilização civil sem precedentes, tornando-se um marco no desgaste público do autoritarismo no Brasil. Para consolidar a precisão do achado, a equipe da Unifesp também cruzou dados com o laudo de José Ferreira de Almeida, outro preso político que faleceu no mesmo ano e na mesma sala. A identificação técnica do espaço é vista por pesquisadores como um passo fundamental para a compreensão dos métodos utilizados pelo aparato repressivo, permitindo que a materialidade do prédio sirva como prova histórica das violações ocorridas no período.

Propostas para a criação de um centro de consciência

Atualmente, existe um movimento jurídico e social para que o antigo prédio do DOI-Codi seja transformado em um centro de memória e educação. O Ministério Público de São Paulo mantém uma ação para que a Secretaria de Segurança Pública autorize a conversão do imóvel, que já é tombado, em um espaço dedicado à reflexão histórica. Especialistas defendem que a preservação do local é essencial para que a sociedade possa compreender a gravidade dos fatos ocorridos. Conforme aponta um dos pesquisadores do projeto, “preservar esse espaço é convidar a sociedade a entrar ali e refletir sobre o que aconteceu”, garantindo que o patrimônio físico auxilie na manutenção da verdade sobre a história brasileira.

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