Saúde & Bem-estar

Novo implante similar a marca-passo pode mudar tratamento psiquiátrico

Pesquisa indica que dispositivo reduz sintomas em pacientes que não respondem a medicamentos tradicionais e melhora qualidade de vida

Uma nova perspectiva terapêutica surge para pacientes diagnosticados com um quadro emocional delicado resistente aos tratamentos convencionais. Um estudo recente, publicado no *International Journal of Neuropsychopharmacology*, analisou a eficácia de um implante conectado aos nervos do pescoço, operando de maneira análoga a um marca-passo cardíaco. A investigação acompanhou 214 adultos que apresentavam condições moderadas a graves e que já haviam passado por, no mínimo, quatro tentativas falhas com o uso de medicamentos antidepressivos, sem obter alívio significativo. Os resultados apontaram para uma redução dos sintomas e períodos mais longos sem a ocorrência de crises, oferecendo uma alternativa para indivíduos que convivem com essa condição crônica, alguns há mais de 17 anos.

Publicidade

A tecnologia utilizada na pesquisa é conhecida como estimulador do nervo vago (VNS), um método já estabelecido para casos de epilepsia de difícil controle. O procedimento consiste na implantação cirúrgica do dispositivo sob a pele, na região esquerda do peito, conectando-o aos nervos localizados no pescoço. Durante o estudo, observou-se uma diminuição de 80% nos episódios de crise entre os participantes. Os dados revelaram que os benefícios do VNS são progressivos, tornando-se observáveis geralmente entre três a seis meses após o início do funcionamento do aparelho. Notavelmente, cerca de 35% dos pacientes que não perceberam melhorias no primeiro ano relataram progressos ao final da análise estendida, sugerindo que a eficácia do tratamento pode aumentar com o tempo de uso contínuo.

Regulação de neurotransmissores

Especialistas do Hospital Israelita Albert Einstein analisaram o impacto dessa tecnologia. O psiquiatra Alfredo Maluf destaca a relevância da ferramenta, mas pondera sobre seu papel no conjunto terapêutico. “A estimulação neural é um dos mais novos arsenais para lidarmos com esses quadros de depressão resistente ao tratamento”, afirma o médico, ressaltando a continuidade do tratamento farmacológico: “Mas é importante ressaltar que o VNS é um tratamento adjuvante. A gente não deixa de manter a pessoa com as medicações antidepressivas necessárias.” O mecanismo atua diretamente no sistema nervoso parassimpático, influenciando a produção hormonal. A neurologista Gisele Sampaio Silva explica: “Ele atua regulando neurotransmissores como serotonina, noradrenalina e dopamina, fundamentais na regulação do humor. Com isso, influencia redes cerebrais envolvidas na resposta ao estresse, na motivação e na percepção emocional”.

Publicidade

O funcionamento do dispositivo visa reduzir a hiperatividade em áreas do cérebro associadas ao pensamento acelerado, ao mesmo tempo em que amplia a conectividade em regiões responsáveis pelo controle das emoções. Essa ação não cria uma sensação artificial de alegria, mas busca restaurar a funcionalidade biológica. “Essa modulação pode ajudar a reorganizar circuitos que estão desregulados na depressão crônica, promovendo melhora gradual dos sintomas. Ou seja, não estimula felicidade, mas ajuda a reequilibrar circuitos disfuncionais”, detalha Silva. Para os pacientes que não respondem bem apenas aos remédios, esse efeito potencializa as terapias existentes, sendo crucial para aqueles que enfrentam alterações severas de sono, apetite e tristeza extrema.

Sintomas e abordagem terapêutica

A gravidade dos casos resistentes exige atenção imediata devido à intensidade do sofrimento vivenciado pelos pacientes. O quadro clínico envolve uma deterioração significativa da qualidade de vida e riscos elevados à integridade do indivíduo. Maluf descreve a complexidade dos sintomas enfrentados por esse grupo específico: “O quadro clínico nesses casos é principalmente a falta de prazer, humor deprimido ou tristeza constante que a pessoa vivencia ao longo dos dias, além de desânimo, perda de força, pensamento lentificado, ideias de ruína e culpa, chegando às vezes a delírios e ideação suicida”. Além da implementação de tecnologias experimentais como o VNS e da manutenção dos medicamentos, o tratamento multidisciplinar continua sendo essencial, englobando suporte contínuo em psicoterapia e o incentivo à prática regular de atividades físicas como parte da recuperação.

Publicidade

Artigos relacionados

Botão Voltar ao topo