Pesquisadores da Unicamp mapeiam desinformação antivacina no Telegram
Projeto analisou 4 milhões de postagens entre 2020 e 2025 para entender estratégias de propagação de conteúdo falso na saúde pública
Pesquisadores da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) desenvolveram um repositório inédito de dados voltado ao enfrentamento de narrativas contrárias à imunização. Por meio do laboratório de inteligência artificial Recod.ai, a equipe compilou aproximadamente quatro milhões de mensagens de texto e 1,4 milhão de arquivos multimídia extraídos do aplicativo Telegram. O levantamento compreende o intervalo entre janeiro de 2020 e junho de 2025, cobrindo o período crítico da pandemia de Covid-19 e os anos subsequentes. A iniciativa tem como propósito fornecer subsídios técnicos e científicos para fortalecer a comunicação baseada em evidências no setor de saúde pública, permitindo uma compreensão mais aprofundada sobre como operam os fluxos de informações falsas no ambiente digital brasileiro.
O estudo buscou preencher a lacuna existente na disponibilidade de informações abertas e sistematizadas sobre a infodemia no território nacional. A análise revelou padrões complexos de disseminação de conteúdos enganosos sobre tratamentos e imunizantes, identificando conexões com outros temas sociais. Conforme o texto do material de divulgação do laboratório, “os dados mostram que a desinformação vai além da saúde e envolve disputas políticas, crenças e desconfiança nas instituições com impactos reais, como a queda da cobertura vacinal”. Além disso, foi observada a influência direta de eventos externos, como processos eleitorais, que acabam por impulsionar a circulação dessas mensagens nas redes sociais monitoradas, criando picos de atividade e compartilhamento.
Estratégias de propagação digital
A investigação apontou a existência de uma estrutura organizada por trás do compartilhamento massivo de conteúdos. Leopoldo Lusquino Filho, docente da Unesp e colaborador do projeto, explicou o foco do trabalho: “Queremos entender melhor as motivações e estratégias de propagação da desinformação, mais precisamente na questão da vacinação”. O pesquisador comparou a sobrevivência e a força de certas mensagens aos mecanismos de seleção natural. A equipe constatou diferentes papéis operacionais dentro da rede: “Nós fizemos uma análise e conseguimos identificar que existem canais que só disseminam desinformação, outros que apenas a compartilham, e os que fazem as duas coisas. Existe uma estratégia por trás disso”, afirmou Lusquino Filho, citando ainda que eventos políticos “geram um efeito dominó nessas redes”, ampliando o alcance das narrativas.
O impacto social e as razões pelas quais usuários consomem tais conteúdos também foram objetos de estudo detalhado. A doutoranda Michelle Diniz Lopes explicou o escopo da análise comportamental: “Analisamos as reais motivações das pessoas que consomem informação negacionista na área de saúde, principalmente no que diz respeito à questão vacinal, e quais são as estratégias eficientes para propagação dessa desinformação”. Fatores como desconfiança institucional e visões religiosas foram identificados como vetores de influência. Christiane Versuti, pós-doutoranda que acompanhou os grupos, destacou a ausência de verificação de fatos, pontuando que “as pessoas não têm o hábito de checar as fontes ou só compartilhar algo quando têm certeza do conteúdo”. Ela acrescentou que, nesse ambiente, “os jornalistas só são considerados sérios quando falam o que a pessoa defende”.
Expansão do banco de dados
O banco de dados resultante possui 5,5 terabytes de armazenamento e agrega interações de mais de 71 mil usuários em 119 grupos, estando disponível gratuitamente para fins não comerciais no Repositório de Dados da Unicamp. O projeto teve suporte da Maritaca.ai para a anonimização dos dados e identificação de postagens, além de financiamento de instituições como Fapesp, CNPq e Ministério da Saúde, através do Projeto Aletheia. Para o futuro próximo, o Recod.ai planeja lançar bases similares abrangendo outras plataformas, como Instagram, YouTube e X. Representantes do laboratório pretendem reunir-se com autoridades federais para apresentar a ferramenta como um recurso auxiliar na formulação de novas políticas públicas de combate à desinformação.



