Opinião

O sangue de Abel e os senhores do mundo: A Terra não beberá em silêncio

Crônica de pura reflexão

Gustavo Uchôas Guimarães, é professor nas cidades de Elói Mendes e Varginha na área de história, conta com vários livros publicados entre história, poesia e outros gêneros. É vice-presidente da Associação de poetas e escritores do Sul de Minas (Apesul) e membro da Acadêmia de letras e ciências de Varginha a AVLAC. 

Segundo o relato bíblico, o primeiro crime cometido foi o assassinato de Abel por seu irmão Caim (Gênesis 4,1-16). São várias as interpretações e os pontos de vista: há quem leia o trecho como um relato literal, há quem o leia como uma alegoria sobre a vida nômade e pastoril (representada pela figura de Abel) sendo suplantada pela vida sedentária e agrícola (representada por Caim), há quem o leia como uma metáfora das lutas entre os seres humanos e destes contra Deus, entre outras considerações. Para este texto, o ponto de partida será Gênesis 4,10: “Que fizeste! Ouço o sangue de teu irmão, do solo, clamar para mim!” São as palavras divinas a Caim, amaldiçoando-o por ter matado um inocente. Estas palavras ecoam ao longo da História, repetidas cada vez que sangue inocente é derramado em nome de interesses perversos e egos inflados. 

Nos dias atuais, é bastante numerosa a quantidade de conflitos ao redor do mundo e não há como mensurar, com exatidão, a quantidade de vidas inocentes que morrem por causa da ganância, da má-fé, dos interesses malditos e de uma inversão de valores que coloca acima da vida humana o capital, o Estado, as armas e o poder, não importa qual a “capa ideológica” assumida por quem governa e quem controla os governos mesmo sem ter cargos políticos. Muitas vidas inocentes se perdem quando terroristas atacam civis israelenses e muitas mais se perdem quando um Estado sionista revida com bombardeios e crueldades, escondendo-se atrás da acusação de antissemitismo contra qualquer um que lhe faça oposição; muitas vidas inocentes se perdem quando um governo toma o poder prometendo democracia e entrega repressão e violência – caso dos aiatolás iranianos – e muitas também se perdem quando as bombas de precisão estadunidenses e israelenses ceifam vidas de meninas em uma escola, além de outras atrocidades; muitas vidas inocentes se perdem em muitos outros conflitos que envolvem animosidades de vários lados na Ucrânia, no Iêmen, na Somália, no Sudão, na República Democrática do Congo, na Etiópia, no Haiti e em tantos lugares onde a terra se afoga com sangue inocente que clama contra os senhores do mundo. 

Nas grandes religiões monoteístas – judaísmo, cristianismo e islamismo –, não faltam condenações àqueles que matam inocentes (seja fisicamente ou através de ações opressoras e injustas): “[…] quem matar uma pessoa, sem que esta tenha cometido homicídio ou semeado a corrupção na terra, será considerado como se tivesse assassinado toda a humanidade” (Alcorão, surata 5, versículo 32); “Seis coisas detesta Iahweh, e sete lhe são abominação: olhos altivos, língua mentirosa, mãos que derramam o sangue inocente […]” (Provérbios 6,16-17, presente nas Escrituras cristã e judaica); “E não creiais que Deus está desatento a tudo quanto cometem os injustos. Ele somente os tolera, até ao dia em que seus olhos ficarão atônitos” (Alcorão 14,42); “Ai dos promulgam leis iníquas, os que elaboram rescritos de opressão para desapossarem os fracos do seu direito e privar da sua justiça os pobres do meu povo, para despojar as viúvas e saquear os órfãos” (Isaías 10,1-2, presente nas Escrituras cristã e judaica). 

Essas passagens dos escritos que as principais religiões monoteístas têm por sagrados mostram que os senhores do mundo, por mais arrogantes que sejam e por mais que não considerem o castigo futuro caso não se convertam, estão na mira de uma Justiça que é muito maior que a deste mundo. Enquanto isso, mais e mais sangue inocente é derramado em nome de egos inflados, de doutrinas sobre não interferências externas e controle do “quintal” e de teologias distorcidas (sejam elas produzidas por quem se diz cristão ou judeu ou muçulmano) que veem “eleição divina” onde, na verdade, há manipulação do discurso religioso e sanha de poder. 

Aos que se deixam transformar positivamente pelas palavras de seus livros sagrados, é imperativo que se posicionem contra os senhores do mundo e o derramamento de sangue inocente: “Aquele que sabe fazer o bem e não o faz, comete pecado” (Tiago 4,17); “Felizes os que promovem a paz, porque serão chamados filhos de Deus” (Mateus 5,9); “Quem dentre vós vir o mal, que o mude com a mão. Se não puder fazê-lo, que o faça com a língua. Se não puder fazê-lo, que o faça com o coração, que é o nível mais fraco de fé” (Muhammad, no hadith [palavra ou ação] contido em Sahih Muslim, 49). Nessa linha de raciocínio, temos os exemplos históricos da Declaração Teológica de Barmen (em que luteranos alemães, suíços e suecos se posicionaram contrários ao governo nazista de Hitler, em 1934), do alerta de Santo Agostinho (século V) sobre a “idolatria do Estado” em seu livro De Civitate Dei (A Cidade de Deus) e do ensinamento islâmico sobre a desobediência em situações que contrariam a Deus (“Não se deve obedecer em más ações; a obediência é exigida apenas para o bem” – Muhammad, no hadith contido em Sahih al-Bukhari, 7257). 

Esse texto foi iniciado com uma referência do primeiro livro bíblico e será finalizado com uma referência do último livro bíblico. Como o derramamento de sangue inocente inclui muitos que seguem sinceramente sua fé, vale a menção do trecho: “[…] vi sob o altar as almas dos que tinham sido imolados por causa da Palavra de Deus […]. E eles clamaram em alta voz: Até quando, ó Senhor santo e verdadeiro, tardarás a fazer justiça, vingando nosso sangue contra os habitantes da terra?” (Apocalipse 6,9-10). A mesma pergunta se faz diante de tantos conflitos, egos malditos, ganâncias insaciáveis e mortandades: até quando durará o silêncio da terra que bebe o que é derramado pelos senhores do mundo? 

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