Imóvel de R$ 70 mil e cofre: os detalhes da investigação contra Carlos Bolsonaro
Ministério Público apura suspeitas de lavagem de dinheiro em compra de apartamento com valor abaixo do mercado e uso frequente de cofre bancário
A Procuradoria-Geral de Justiça (PGJ) do Rio de Janeiro determinou a reabertura das investigações envolvendo o vereador Carlos Bolsonaro. O procedimento, que havia sido arquivado no ano anterior, volta a ser analisado pelo Ministério Público do Rio (MP-RJ) com o foco em apurar indícios de práticas ilícitas, incluindo a suposta apropriação de salários de assessores, esquema conhecido como “rachadinha”, e possíveis manobras de ocultação de patrimônio. A decisão da PGJ baseia-se na identificação de lacunas nas apurações iniciais, exigindo um escrutínio mais detalhado sobre transações financeiras que apresentaram inconsistências e sobre a evolução patrimonial do parlamentar, buscando esclarecer fatos que não foram devidamente explicados anteriormente.
Um dos pontos centrais do inquérito refere-se à aquisição de um apartamento em Copacabana, na zona sul carioca, realizada em 2009. De acordo com os dados levantados, o imóvel situado em um apart-hotel foi comprado pelo valor declarado de R$ 70 mil. Entretanto, a avaliação da Prefeitura do Rio para fins tributários na mesma época estipulava o valor em quase R$ 300 mil, indicando uma transação 70% abaixo do preço de mercado. Atualmente, unidades similares são avaliadas em cerca de R$ 600 mil. As autoridades fiscais investigam se a diferença de valores foi quitada “por fora”, utilizando dinheiro em espécie, o que poderia configurar uma tentativa de legalizar recursos de origem não rastreável.
Investigação sobre pagamentos e rotina bancária
Além das transações imobiliárias, o Ministério Público concentra esforços na análise do custeio de despesas cotidianas que não transitaram pelas contas bancárias oficiais. Durante um período de nove anos de contrato com uma operadora de saúde, identificou-se que apenas um único boleto foi pago através da conta registrada em nome do vereador. A apuração busca determinar a origem dos recursos utilizados para quitar as dezenas de outras mensalidades, levantando a hipótese de uso de verbas em espécie que circulavam pelo gabinete político, uma vez que não há registro digital dessas saídas financeiras nas contas analisadas pelos promotores de justiça.
A rotina bancária de Carlos Bolsonaro também é objeto de escrutínio, especificamente quanto à manutenção de um cofre em uma agência bancária. Os registros apontam que o vereador acessava o compartimento com frequência, ocorrendo pelo menos uma vez por mês. O comportamento chama a atenção dos investigadores, considerando o contexto atual de digitalização bancária. O uso recorrente de cofres físicos é analisado pelas autoridades como um possível método para a guarda de bens ou valores que o titular prefere manter à margem do sistema financeiro tradicional, diferentemente do que ocorre com investimentos digitais ou transações via internet banking.
Contexto das apurações e novas diligências
A retomada do caso insere-se em um contexto mais amplo de verificações sobre as movimentações financeiras da família Bolsonaro. A PGJ determinou que instituições financeiras e operadoras de saúde forneçam dados detalhados para preencher as lacunas deixadas na investigação anterior. O objetivo é cruzar as informações do suposto “negócio da China” em Copacabana e dos pagamentos sem rastro bancário com os dados fiscais do vereador. A apuração visa esclarecer definitivamente se houve a prática de lavagem de dinheiro e se o patrimônio acumulado é compatível com os rendimentos lícitos declarados ao longo dos mandatos, sem deixar margem para dúvidas sobre a legalidade das operações.


