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Mãe relata drama de filho autista que veste uniforme de madrugada esperando aula

Estudantes neurodivergentes ficaram sem suporte nas primeiras semanas letivas; governo aponta capacitação obrigatória como motivo da demora

Duas semanas após o início do ano letivo no Distrito Federal, estudantes neurodivergentes da rede pública ainda enfrentam dificuldades para frequentar as aulas devido à ausência de monitores e educadores sociais voluntários (ESVs). A falta desses profissionais de suporte impede a inclusão efetiva de alunos com Transtorno do Espectro Autista (TEA), gerando impactos na rotina familiar e no desenvolvimento pedagógico. Um exemplo dessa realidade é vivenciado por Guilherme Miranda Pontes Cinaty, de 13 anos, e seu irmão Matheus, de 8 anos. A mãe relata que Guilherme, sentindo falta da rotina escolar, chegou a vestir o uniforme durante a madrugada dentro de casa. A direção do Centro de Ensino Fundamental 11 de Taguatinga informou que a situação deve ser regularizada em breve com a assinatura dos contratos.

A mãe dos estudantes, Maria Luiza Teixeira de Freitas de Miranda Pontes, defende a educação como ferramenta fundamental para a autonomia dos filhos, citando o exemplo do filho mais velho, de 19 anos, que também possui TEA e ingressou recentemente na Universidade de Brasília (UnB). Ela reforça a necessidade de suporte contínuo para garantir que as crianças alcancem seu potencial. “Aqui em casa eu digo todos os dias: meus filhos podem conquistar o que desejarem, o mundo é deles. Basta eles aprenderem a se respeitar e não desistir de ser quem são”, afirmou Maria Luiza. Atualmente, a rede pública do DF conta com cerca de 20 mil estudantes com laudos médicos e 2.800 matriculados em centros de ensino especial.

Cobrança por planejamento antecipado

Entidades representativas criticam a gestão do calendário de contratações. O Movimento do Orgulho Autista do Brasil (Moab) aponta a recorrência do problema a cada início de ano letivo. O presidente da organização, Edilson Barbosa, destacou a falha no cronograma. “Mais um ano sem que a Secretaria de Educação cumpra seu papel de oferecer os apoios escolares, o educador social voluntário, no primeiro dia de aula”, declarou. O Sindicato dos Professores (Sinpro) também se manifestou, argumentando que a dependência de contratos temporários sem vínculo efetivo demonstra falta de planejamento governamental, o que expõe os estudantes à vulnerabilidade e sobrecarrega os docentes em sala de aula.

Em resposta às críticas sobre o atraso, a secretária de Educação do DF, Hélvia Paranaguá, explicou que os educadores não estavam presentes no início das aulas pois precisavam concluir uma capacitação de 80 horas, exigida pela legislação atual e por decreto federal. Segundo a gestora, o treinamento visa qualificar o atendimento. “Uma queixa dos pais foi justamente a falta do conhecimento de lidar com a criança. Então, a gente tem que passar pela formação. Estamos dentro do prazo. Mas é melhor atrasar um pouquinho e receber o profissional orientado do que receber um profissional que não passou por formação”, justificou a secretária, assegurando que o envio dos profissionais às escolas já foi iniciado.

Reestruturação da carga horária e pagamentos

A Secretaria de Educação informou que convocou 8,5 mil educadores sociais voluntários para preencher as vagas imediatas e implementou mudanças no modelo de trabalho. Neste ano, os turnos dos ESVs foram ampliados para cinco horas diárias, visando cobrir todo o período de permanência do aluno na escola, eliminando a lacuna de uma hora que ocorria anteriormente. A remuneração também foi ajustada, passando de R$ 40 para R$ 80 por turno único. De acordo com a pasta, a alteração busca oferecer melhores condições aos prestadores de serviço, permitindo que busquem outras oportunidades de trabalho ou qualificação no contraturno, além de garantir assistência integral aos estudantes durante o horário letivo.

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