A memória como instrumento de reparação histórico, social e cultural
O que senti ao ler "Becos da Memória", romance memorialista de Conceição Evaristo
Para quem acompanha há algum tempo meu jeito de escrever, sabe que eu prezo pela emoção e costumo transformar sentimentos em palavras da forma mais fiel possível, à minha percepção dos fatos. Então, quando estou lendo uma obra, entro em conexão com as personagens e me envolvo com a narrativa, sinto, choro, vibro e dou risadas, a depender do enredo.
Becos da Memória, de Conceição Evaristo, foi o livro escolhido pelo Clube do Livro, um grupo de leitura do qual participo, embora nem sempre consiga ir às reuniões.
É um grande desafio, uma proposta ousada até partilhar o que senti ao ler essa obra renomada, de uma brasileira, mineira, que muito admiro.
Inicio destacando a beleza e a profundidade da capa da 3ª edição. Ela tem um relevo. Quando meus dedos acariciaram a capa e meus olhos encontraram as fotos dispostas ali, minha mente se transpôs para um passado, que não era meu, mas que me traria muitos conhecimentos.
Ao começar a leitura propriamente, fui apresentada a vários personagens, moradores da retratada favela. Quem nos reporta as histórias é a narradora Maria-Nova, que também é personagem. Ela é responsável por nos apresentar o universo da favela e seus dilemas. Através do olhar de Maria-Nova, pude conhecer as famílias e todo tipo de história: alegres, tristes, emblemáticas, amorosas…digo que, algumas vezes, interrompi a leitura para dar vazão às minhas lágrimas, porque não é raro sentir um nó na garganta quando a narrativa apresenta a dor e o sofrimento de maneira tão realista.
Aquela comunidade ainda enfrenta um processo de desfavelamento, que abala a pouca ou quase nenhuma estrutura que se tinha na época. Vemos resistência e desesperança, morte e vida, através do olhar de Maria-Nova, que tem a expertise de relacionar a favela com a senzala e segue lutando pelos seus sonhos de um dia transformar a própria realidade.
Ampliando a relevância da obra em destaque, menciono um trecho de um artigo científico:
1“Um aspecto relevante que depreendemos das histórias narradas por Maria-Nova refere-se à identidade assumida pelo negro na contemporaneidade. Nela ele se apresenta como sujeito de uma enunciação própria, que é e se quer negra. Essa identidade se opõe àquela do escravo passivo e dócil da época da escravidão e mesmo depois dela, rompendo com a postura subalterna anteriormente atribuída ao negro. O discurso dele nessa nova identidade assume postura ideológica, clara e forte, a qual revela sua condição e a da cultura afro-brasileira no país. Com essa nova atitude, o negro sai da condição de vítima retratada pela literatura eurocêntrica e passa a agir em defesa de seu espaço na sociedade que é sua de direito:” (COSTA, Elisângela de Lana)
Assim, recomendo a leitura e para os sensíveis, é possível conhecer uma versão da história do Brasil relatado pelo ponto de vista de quem a viveu.
Com a palavra, a autora Conceição Evaristo:
https://youtu.be/CwGlD_ymQUs?si=9cd4ak6RdUwt6s2r
Adriene Lucas da Cruz é natural de Varginha-MG. Poeta, sempre gostou de observar a vida e seus movimentos. É autora do livro Paisagens Interiores, sendo sua primeira publicação em 2023 – Editora Toma Aí Um Poema. Tem participação em antologias, blog e revista digital da TAUP. É membro da APESUL – Associação dos Poetas e Escritores do Sul de Minas; e da Afesmil – Academia Feminina Sul-Mineira de Letras. Faz palestras refletindo sobre o processo criativo e colabora escrevendo para plataformas digitais. Professora de Língua Portuguesa, especialista em Produção Textual, licenciada em Letras – Português.

Assim, recomendo a leitura e para os sensíveis, é possível conhecer uma versão da história do Brasil relatado pelo ponto de vista de quem a viveu.



