‘Não é a América onde cresci’: esposa relata prisão de brasileiro nos EUA
Matheus Silveira foi detido durante processo de visto; Hannah Silveira denuncia condições de detenção e falta de informações sobre o marido.
Hannah Silveira, advogada norte-americana de 30 anos, manifestou profunda insegurança em relação ao atual cenário nos Estados Unidos após a detenção de seu marido, o brasileiro Matheus Silveira, de 31 anos. O episódio ocorreu em 24 de novembro, em San Diego, quando o casal compareceu a uma entrevista agendada para a regularização do visto de residência permanente, conhecido como green card. Matheus, que reside no país desde 2019 e trabalhava com entregas, teve seu pedido de vínculo familiar aprovado momentos antes de ser abordado por agentes do serviço de imigração, o ICE. A situação gerou um forte impacto na esposa, que desabafou sobre a sensação de não reconhecer mais sua nação de origem. “Está se tornando difícil olhar para o meu país e reconhecer qualquer coisa ou pessoa. Eu caminho por essas ruas e não me sinto segura. Não é a América onde cresci”, declarou Hannah.
O procedimento no edifício federal foi marcado por tensão desde a chegada do casal, com verificações repetidas de documentos. Após a confirmação da aprovação do Formulário I-130, etapa que valida o casamento para fins imigratórios, um funcionário indicou que havia pessoas aguardando para conversar com eles. Matheus foi então cercado por quatro agentes federais que apresentaram um mandado de prisão. A advogada descreveu a ação como desproporcional, ressaltando que ambos estavam tranquilos no escritório. “Nós estávamos apenas sentados no escritório, completamente calmos. Foi uma quantidade desnecessária de pessoas, uma quantidade desnecessária de força, na minha opinião. Eles vieram com um mandado e apenas disseram: ‘Eu tenho um mandado para a sua prisão'”, relatou. O brasileiro, que teve seu visto de estudante expirado durante a pandemia, foi levado sem que a esposa pudesse entregar seus óculos.
Irregularidades na detenção e transferência
Inicialmente, Matheus foi encaminhado ao Centro de Detenção de Otay Mesa, onde enfrentou condições descritas como precárias, incluindo a necessidade de dormir no chão. A situação se agravou quando o sistema de rastreamento indicou que ele não estava mais na unidade, e as autoridades locais não souberam informar seu paradeiro por cerca de 48 horas. Posteriormente, descobriu-se que ele havia sido transferido durante a noite para o estado de Louisiana. A falta de transparência gerou indignação na esposa quanto à gestão do caso. “A pessoa do outro lado da linha disse: ‘Não sabemos onde ele está'”, contou Hannah. Ela questionou a competência da agência federal diante do desaparecimento temporário de seu marido do sistema de monitoramento.
A transferência e a iminente deportação forçada contrariam uma decisão judicial prévia. Em janeiro, a Justiça havia concedido a Matheus o direito de deixar os Estados Unidos voluntariamente, o que permitiria que ele custeasse sua própria passagem em um voo comercial. No entanto, o brasileiro permanece detido e teria assinado um documento autorizando sua transferência sem a presença de seu advogado e sem seus óculos. Hannah expressou frustração com a conduta dos agentes: “Só posso especular que: ou eles são extremamente desorganizados e não têm a capacidade de gerir todas essas centenas, talvez milhares de pessoas sob seus cuidados; ou estão mentindo para mim, porque sabem exatamente onde Matheus está e não vão me dizer a verdade porque sabem que ele não deveria estar lá”.
Deportação e planos de retorno ao Brasil
Diante do cenário de deportação, o casal planeja reconstruir a vida no Rio de Janeiro assim que Matheus retornar ao país. A intenção é residir temporariamente com a família do brasileiro até que consigam se restabelecer financeiramente. Hannah destacou que todas as economias do casal foram utilizadas para cobrir os honorários advocatícios e as despesas decorrentes do processo legal nos Estados Unidos. Como a advogada não possui permissão legal para exercer sua profissão imediatamente no Brasil, o período de adaptação exigirá suporte familiar enquanto buscam estabilidade após o desfecho do processo imigratório.



