Este título poético apareceu no meu Instagram, com uma fotografia. Poderia ser um simples entulho de construção ao ar livre, onde se podia ver peças, pedaços e estilhaços de tijolos, azulejos azuis em vários tons e tamanhos, terra e reboco. Partes de algo que poderia ser de uma casa, de uma escola, de um banheiro, de um bar, de uma farmácia…Mas não é tão simples quanto parece. Eu e a pessoa, que tirou essa foto e a publicou, sentimos a mesma coisa? Certamente não, mas, quem sabe, a mesma provocação.
A imagem dividiu minha atenção com o título escrito por ela. “De outros os pedaços de chão” pedaços de outros, não da observadora. A ordem sintática inversa fez a frase soar inusitada e a forma exposta em um verso curto, fragmentado, também. De cara ela me ganhou no visual. Forma e conteúdo. Agora vamos ao conteúdo. “De outros/os pedaços de chão” me fez pensar nos meus próprios pedaços de chão. Meu trabalho, minha saúde, minha família, minha casa, entre outros. Poderiam estar em um só lugar todos os meus apoios para os “pés”? E você, leitor? Qual a localização e dimensão do seu chão? Quantos pedaços eles têm? Onde estão? São do tamanho da sua casa, do seu quarto, do seu país, do seu planeta ou dos seus afetos? E aí vem a segunda parte, a mais importante: Eu me importo com o chão dos outros? Como lido com o outro e com o seu chão? Com que pés piso no espaço alheio? Com que olhos e coração? A imagem segue ecoando.
*Depois de escrito esse texto, conversei com a autora da postagem, a multiartista Juliana Ribeiro, e ela me explicou que esse “pedaço de chão” é antigo na vida dela, real e concreto. Uma verdadeira história de amor que o seu olhar sensível acolheu e transformou em arte.
fotografias de @juliana_ribeiro_a

Girlene Verly é escritora, poeta e dançaterapeuta nascida em Araruama, RJ, há anos morando no interior de Minas. É graduada, mestre em Letras pela UFSJ e doutora em Literatura Comparada pela UFMG. Já publicou em jornais, revistas literárias e antologias. Em 2023 lançou “O corpo sabe que é terça”, mas se distrai”, pela Editora Folheando e em 2024 “Dança de samambaias”, pela Editora Patuá. Instagram: @autora_verly



