Marcha na ponta dos pés: entenda a relação do hábito infantil com o diagnóstico de autismo
O ortopedista pediátrico Filipe Barcelos explica quando o comportamento motor deixa de ser uma fase do desenvolvimento e exige avaliação médica.
O hábito de caminhar sem apoiar os calcanhares no chão é uma etapa motora frequente durante os primeiros anos de vida. Contudo, a manutenção da marcha na ponta dos pés após os três anos de idade exige acompanhamento especializado, pois o comportamento prolongado está associado a diferentes condições neurológicas, incluindo o transtorno do espectro autista (TEA). A persistência dessa característica motora serve como um indicador para que pais e pediatras investiguem o desenvolvimento global da criança.
Dados científicos recentes reforçam a correlação entre a condição motora e o neurodesenvolvimento. Um levantamento publicado em 2025 pelo Journal of Foot & Ankle Surgery demonstrou que a marcha persistente na ponta dos pés ocorre em apenas 1,5% das crianças sem diagnóstico de TEA. Em contrapartida, entre o grupo de indivíduos autistas, a incidência do comportamento atinge 6,3%, representando uma frequência aproximadamente quatro vezes maior na comparação entre os dois perfis analisados.
Marcha na ponta dos pés e autismo segundo o médico Filipe Barcelos
O ortopedista pediátrico Filipe Barcelos, pesquisador do Laboratório de Estudo do Movimento Einstein (LEME) com atuação em Santa Catarina, esclarece que o padrão motor isolado não define um quadro neurológico. “O fato de uma criança andar na ponta dos pés não significa que ela seja autista. Essa característica pode aparecer em diferentes situações e até mesmo em crianças sem nenhum diagnóstico específico”. O especialista pontua que o hábito também possui ligação com paralisia cerebral, distrofias musculares, transtorno do déficit de atenção com hiperatividade (TDAH) ou pode ser classificado como marcha idiopática, quando não existe uma causa aparente.
A ciência investiga os motivos que levam crianças no espectro a adotarem esse padrão de caminhada, sendo as alterações sensoriais a principal hipótese clínica. Indivíduos com TEA podem experimentar desconforto tátil ao encostar a planta inteira do pé na superfície, optando por concentrar o peso na parte frontal. Segundo os dados levantados pelo ortopedista, entre 20% e 40% dos pacientes diagnosticados com autismo manifestam esse tipo de locomoção em alguma fase da infância.
Sinais de autismo infantil e a importância da avaliação médica
A avaliação clínica de uma criança com suspeita de atraso ou alteração no desenvolvimento exige uma análise multidisciplinar. O diagnóstico de TEA baseia-se na observação de múltiplos fatores comportamentais, comunicativos e motores. “O autismo é uma das condições em que vemos essa característica com bastante frequência, mas é importante lembrar que ela nunca deve ser analisada isoladamente. O diagnóstico precisa considerar um conjunto de sinais e comportamentos”, detalha o médico, reforçando a necessidade de uma investigação médica completa.



