Opinião

NO PAÍS DAS TERRAS RARAS, O NACIONALISMO RAREIA

Temos que salvar nossas Terras Raras

Gustavo Uchôas Guimarães Professor de História em Elói Mendes, vive em Varginha. Historiador, escritor, pesquisador, poeta e um insaciável leitor e curioso. 

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Começo esse texto citando o famoso escritor infantojuvenil Monteiro Lobato (1882-1948), mas não citarei nenhuma de suas histórias voltadas a crianças e jovens. Para quem não sabe, ele se envolvia também com política e chegou a ser preso, na década de 1930, por suas pesadas críticas ao governo de Getúlio Vargas quanto à exploração de petróleo no Brasil. Lobato, que encabeçou o movimento “O petróleo é nosso” aqui no país, publicou o livro “O escândalo do petróleo”, em 1936; em um trecho do livro, ele diz: “Com as montanhas de ferro que possui e com o que existe de óleo em suas entranhas, o Brasil pode passar da grotesca situação que hoje ocupa no mundo à plana dos países supremos” (página 77; adaptado à ortografia atual). Anos depois, o próprio Getúlio Vargas abraçou o movimento nacionalista e criou, no início dos anos 1950, a Petrobras, batendo de frente com grandes empresas estrangeiras que estavam de olho em nosso petróleo.

O Brasil tem tudo para ser um país gigante. Não falo aqui do gigantismo territorial ou natural, pois isso o Brasil tem. No entanto, falta ao Brasil um gigantismo de alma, de se valorizar, de não baixar a cabeça diante de quem nos explora, de afirmar seu lugar no mundo – um país potência e não uma atualizada e remasterizada colônia de exploração (com aval de nossos governantes). Nelson Rodrigues, na década de 1950, criou a expressão “complexo de vira-lata” para falar de nossa admiração pelo que há lá fora, uma admiração que nos leva à inferiorização de nós mesmos. O Brasil padece desse complexo cada vez que tem a oportunidade de se tornar uma potência econômica e não o faz, preferindo atender a interesses externos. A criação de uma estatal brasileira para exploração de petróleo foi um lampejo de nacionalismo e de vontade de ser gigante. Porém, não vemos o mesmo lampejo nos dias atuais no que se refere às terras raras.

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Para quem não sabe, as terras raras são um grupo de 17 elementos químicos, como o neodímio, praseodímio, lântano, cério, disprósio e o térbio, usados na fabricação de ímãs permanentes de alta potência, na criação da resistência dos ímãs às altas temperaturas, na fabricação de catalisadores automotivos, no refino do petróleo, entre outros usos. Isso significa que as terras raras são importantíssimas para as indústrias de carros elétricos, turbinas eólicas, smartphones, satélites e até sistemas de orientação de mísseis. Atualmente, a China é responsável por 70% da extração e 90% do refino de terras raras no mundo. Logo em seguida, vem o Vietnã e, em terceiro lugar, o Brasil. Nosso país tem uma riqueza imensa que se tornou um tabuleiro na geopolítica, pois os Estados Unidos querem manter sua própria cadeia de suprimento de terras raras para depender cada vez menos da China. O Brasil, no meio disso tudo, tem uma incrível oportunidade de se posicionar melhor no tabuleiro geopolítico e deixar de ser um mero exportador de commodities – “grotesca situação”, usando palavras de Monteiro Lobato – para se tornar um país mais industrializado e avançado tecnologicamente – chegar “à plana dos países supremos”, usando de novo as palavras de Lobato. Mas, sabe o que o Brasil faz nesse sentido? Nada!

Lula, em seu terceiro mandato, adota um discurso de defesa da soberania nacional e critica a dependência do Sul global em relação às potências mundiais. Porém, esse discurso é um mero engodo quando se vê que, na questão das terras raras, seu governo não se movimenta na direção de uma soberania energética e de uma defesa enfática dos interesses brasileiros nesse aspecto do atual tabuleiro geopolítico. Como exemplo, podemos citar a venda da Mineração Serra Verde (Minaçu – Goiás), que estava em mãos de fundos estrangeiros (europeus e estadunidenses), para a empresa USA Rare Earth, em uma operação concretizada em abril de 2026 e que gera muita discussão sobre a soberania do Brasil no que se refere às terras raras. Partidos de esquerda e centro-esquerda entraram com representações no Supremo Tribunal Federal para questionar o governo do estado de Goiás a respeito da transação, mas o fato é que o governo federal poderia ter evitado que essa venda acontecesse, através de mecanismos da Agência Nacional de Mineração (Ministério de Minas e Energia) e do Código de Mineração, pelo qual o governo federal pode declarar como de interesse nacional áreas ou minerais estrategicamente importantes para a segurança e o desenvolvimento tecnológico do país. O governo federal usou desses mecanismos? Não!

O que vemos hoje é a maior parte da extração de nossas terras raras sendo controlada por empresas estrangeiras (especialmente dos EUA e da Austrália) e a inexistente vontade do governo federal em reverter isso e assumir o protagonismo para que o Brasil, além de mero vendedor de nossas riquezas a preço baixo, passe a ser também detentor de tecnologia para que os minerais tenham valor agregado, o que beneficiaria nossas indústrias e nosso desenvolvimento econômico e tecnológico. Infelizmente, temos um governo que, dizendo-se de esquerda, comporta-se como neoliberal e privatista. No aspecto das terras raras, o cenário atual não nos oferece esperanças: o Ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços descartou a possibilidade de uma estatal para controle das terras raras; se Lula vencer a próxima eleição presidencial, não teremos uma política nacionalista em relação às terras raras; se Flávio Bolsonaro vencer a próxima eleição presidencial, haverá ainda mais espaço para exploração estrangeira de nossas terras raras (com destaque à presença dos Estados Unidos); e com o investimento em Ciência, Tecnologia e Inovação girando em torno de 1% do PIB (bem abaixo da média das potências mundiais), não se vislumbra um Brasil altamente industrializado, ainda mais qualificado, com mais tecnologia de ponta e ainda mais mercadorias de valor agregado.

Resta apenas a utopia (lugar nenhum) de um solitário grito nacionalista: “As terras raras são nossas!”

 

 

Para saber mais:

Chances que o governo federal teve de proteger nossas terras raras e não aproveitou = https://www.poder360.com.br/poder-infra/mina-de-terras-raras-vendida-a-empresa-dos-eua-nunca-foi-brasileira/

 

Livro “O escândalo do petróleo”, de Monteiro Lobato = https://upload.wikimedia.org/wikisource/pt/2/2e/O_esc%C3%A2ndalo_do_petroleo.pdf

 

Ministro descarta estatal para terras raras = https://www.youtube.com/watch?v=wXEBK5gF_cI

 

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