Opinião

Consciência, Sonho e Essência

Texto de pensamento para todos

Poesia de Edward Lustosa Boggiss é ator, diretor, produtor, autor e educador social, assistente social,  tendo passagens pelo teatro e grandes emissoras de TV, como a Rede Globo e a Record.

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O pudor que existe dentro do sonho nem sempre é o mesmo da nossa vida, como o pudor que existe em nossa vida nem sempre é o mesmo. O pudor que existe dentro do sonho nem sempre é o mesmo da nossa vida, como o pudor que existe em nossa vida nem sempre é o mesmo. Porque, no território onírico, as fronteiras que a consciência ergue durante o dia se dissolvem, permitindo que desejos, medos e memórias se manifestem sem o rigor das normas sociais ou dos filtros racionais. A ciência sugere que, nesse estado, o cérebro reorganiza experiências e emoções, criando cenários onde a censura perde força e o simbólico ganha voz. Filosoficamente, isso nos revela que o pudor não é uma essência fixa, mas uma construção moldada pelo contexto, pela cultura e pela percepção de si. E, emocionalmente, talvez seja nesse contraste que encontramos um espelho mais honesto: aquilo que escondemos quando acordados pode sussurrar livremente enquanto sonhamos, não como transgressão, mas como tentativa de compreensão de quem somos para além das máscaras que aprendemos a vestir. Será que nós somos o que realmente somos como essência na vida ou aquilo que achamos que somos nos nossos sonhos? “Quando eu sonho acredito que – tudo o que está acontecendo é verdade. Existem várias justificativas, inclusive científicamente comprovadas, seja neurologicamente, psicologicamente, psicanaliticament, espirituais, entre outras. Mas não vou entrar a fundo nessas questões no momento e sim relatar um fato ou sonho que me ocorreu. Durante um sonho, para mim, Sinto que os sentimentos são reais mas as cores é são diferentes. Outro dia eu sonhei que eu estava voando e conseguia ver tudo de cima, conseguia aproximar e distanciar a minha visão, parar o tempo, interferir no meu destino e no dos outros. Quase como se fosse Deus.

Lembro bem, no meio do vôo, lá do alto, pude focar no rosto de uma menina, linda ela, parecia uma princesa. Um vestido de flor muito lindo, uma pele negra de extrema beleza, cabelo com curvatura entre 4B nas pontas e 4C próximo a raiz. Foi amor a primeira vista. Meu coração parecia saltar pela boca. Aproximei-me com a velocidade da paixão, quanto mais perto eu chegava mais linda ela ficava. Comecei a ouvir vozes que não sabia de onde vinham. De repente me dei conta de que eu conseguia ler os pensamentos dela!!! Tudo, tudo, mas tudo mesmo!!! Isso era incrível!!! Dei um sorriso maroto e me senti poderoso. Ai e que eu me dei conta se eu podia ler os pensamentos dela ela provavelmente também podia ler os meus. E uma voz veio dentro de mim, como uma resposta, Sim!!! Fiquei muito sem graça. A gente não falou uma só palavra, conversávamos através de telepatia.

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Convidei-a para voar comigo ela aceitou e fomos passear. Voávamos de formas diferentes, aumentávamos e diminuíamos a velocidade, subíamos e descíamos, encontramos lugares magníficos que parecem não existir, de tamanha beleza que eram. Foi uma sensação muito boa ver que o outro não tem nada a esconder e que também não podemos esconder nada de ninguém. Comecei a pensar na minha vida rapidamente para ver se não tinha nada do que me envergonhar, ela deu um risinho e minhas bochechas ficaram rosadas na mesma hora, dessa vez fiquei muito sem graça. No fundo não era nada demais, é que me senti totalmente nu, transparente. Foi uma troca e tanto. Aprendi que quando somos nos mesmos sempre e dividimos tudo sem medo, as possibilidades da vida se multiplicam infinitamente. Fica muito mais fácil dar ou receber sem saber qual vai ser o retorno, porque ele é imediato. Senti-me muito bem. Uma musica começou a tocar, como se ocupasse todo o espaço, no inicio não dei muita importância, porque era só ela que me interessava, depois de um tempo não conseguia mais nem ouvir o que ela estava pensando, tentei usar os recursos que tinha descoberto, parar, voltar o tempo, etc, mas foi inútil. Senti uma força me puxando, não sei para onde, tentei me despedir mas ela já não estava mais lá, a paisagem havia sumido, estava tudo ficando escuro e só a musica que não parava e ficava cada vez mais insuportável. Por mais que eu relutasse, acordei!!!” (texto escrito em 1996). Talvez seja aceitar que não há um fim definitivo para aquilo que nos atravessa. O sonho não encerra em si mesmo quando despertamos; ele se prolonga, silencioso, na forma como passamos a olhar o mundo e a nós mesmos. Aquilo que sentimos como absoluto no instante onírico — a verdade, a transparência, a ausência de máscaras — deixa vestígios que a vigília não consegue apagar por completo. É como se a experiência revelasse não uma outra realidade, mas uma outra camada da mesma existência, menos filtrada, menos negociada com o exterior. Nesse sentido, a essência talvez não esteja exclusivamente no que somos acordados nem no que somos quando sonhamos, mas na tensão entre esses dois estados. Somos, ao mesmo tempo, aquilo que controlamos e aquilo que escapa ao nosso controle. A consciência organiza, delimita, protege; o sonho expande, mistura, revela. E entre esses movimentos, constrói-se uma identidade que não é fixa, mas fluida, em constante transformação. O desconforto de se sentir “transparente”, sem esconderijos, pode ser também um convite: o de reconhecer que a vulnerabilidade não é ausência de força, mas uma forma mais profunda de presença. Quando tudo pode ser visto — pelo outro ou por nós mesmos — surge a possibilidade de uma relação mais autêntica com a própria existência. Não porque deixamos de ter pudor, mas porque passamos a compreendê-lo como parte de um jogo maior entre o que mostramos e o que tememos revelar. Assim, talvez o maior aprendizado não esteja no poder de voar, de controlar o tempo ou de acessar pensamentos, mas na percepção de que a verdade que buscamos fora já habita em nós, ainda que fragmentada. O despertar, então, deixa de ser uma ruptura e passa a ser continuidade: uma travessia em que carregamos, mesmo sem perceber, ecos do infinito que visitamos enquanto dormíamos.

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