O efeito inesperado da semaglutida no cérebro que faz pacientes pararem de beber
Pesquisa dinamarquesa aponta que o princípio ativo do Wegovy atua nas vias de recompensa e diminui a dependência etílica
Um ensaio na The Lancet revelou que a semaglutida, base do Ozempic, diminui a ingestão etílica em pacientes com obesidade. A pesquisa dinamarquesa avaliou 108 voluntários por seis meses, comparando o fármaco a um placebo. O médico Carlos Eduardo Barra Couri explica a necessidade do teste: “Associação não prova causa, então precisávamos de um ensaio devidamente controlado para atestar essa hipótese”.
Os participantes tinham índice de massa corporal acima de 30 kg/m² e bebiam mais de 15 dias mensais. A maioria apresentava a forma grave do transtorno. Sobre isso, Couri diz: “Esse é um termo médico empregado para descrever uma relação prejudicial com a bebida, marcada por perda de controle sobre o consumo, dificuldade de reduzir ou parar, desejo intenso de beber, prejuízos na vida pessoal ou profissional, uso continuado apesar de consequências negativas e, em alguns casos, tolerância e sintomas de abstinência”.
Impacto da semaglutida e do Wegovy na redução etílica
Houve queda de mais de 40 pontos percentuais nos dias de alto consumo com a medicação. Couri relata: “A ingestão de álcool caiu 1,5 grama em um mês entre quem usou de fato a semaglutida, ante 1 grama do grupo placebo. Essa diferença representa ao redor de 33 latinhas de cerveja ou doses de destilado por mês”. Além disso, o médico nota: “Como esperado, a semaglutida também levou à perda de peso. O grupo tratado perdeu, em média, 11,2 kg, contra 2,2 kg no placebo”.
A ação do fármaco ajuda a entender o controle da dependência. A substância influencia o sistema nervoso central. Couri esclarece: “Os agonistas de GLP-1 atuam no apetite e no metabolismo, mas também parecem interferir em vias cerebrais associadas à recompensa e à compulsão. É por isso que eles passaram a ser investigados para dependências. Ainda assim, o mecanismo exato no consumo de álcool permanece em aberto”.
Limitações do estudo na The Lancet sobre o princípio ativo do Ozempic
A amostra focou apenas em pessoas com excesso de peso em um único centro, sem acompanhamento de longo prazo. Avaliando o cenário, o especialista conclui: “A mensagem, por ora, não é que a semaglutida virou tratamento aprovado para transtorno por uso de álcool. É que, pela primeira vez, um ensaio desenhado para responder a essa pergunta mostrou que a droga reduziu o consumo elevado em pessoas com obesidade que buscavam tratamento”.



