Saúde & Bem-estar

Estudo indica que beber grandes doses em um único dia eleva risco de fibrose hepática

Pesquisa da Universidade do Sul da Califórnia alerta que concentrar doses de álcool sobrecarrega o órgão e acelera a formação de cicatrizes hepáticas

Mesmo indivíduos que mantêm um consumo moderado de bebidas alcoólicas durante a semana podem enfrentar riscos severos à saúde do fígado ao concentrarem a ingestão em episódios pontuais. Uma pesquisa recente conduzida pela Universidade do Sul da Califórnia revela que o hábito de ingerir grandes quantidades de álcool em um único dia, comum em finais de semana ou eventos sociais, pode triplicar as chances de desenvolvimento de fibrose hepática avançada. O estudo destaca que o padrão de consumo é tão determinante para a integridade do órgão quanto o volume total ingerido ao longo do tempo, afetando especialmente cerca de um terço da população que já convive com a doença hepática esteatótica associada à disfunção metabólica.

Publicidade

A análise foi fundamentada em dados de mais de 8 mil adultos coletados entre os anos de 2017 e 2023, utilizando exames de elastografia hepática para medir a elasticidade e a presença de cicatrizes no órgão. Os resultados apontaram que o consumo episódico excessivo — definido tecnicamente como quatro ou mais doses para mulheres e cinco ou mais para homens em uma única ocasião — está diretamente ligado a um aumento inflamatório. De acordo com os pesquisadores, essa sobrecarga imediata dificulta o processamento metabólico e favorece a evolução de quadros clínicos que podem culminar em condições mais graves, como a cirrose, caso o comportamento seja recorrente.

Impacto metabólico e inflamação do tecido hepático

O mecanismo de dano ocorre porque a ingestão massiva de uma só vez satura a capacidade enzimática do corpo. Segundo o hepatologista Raymundo Paraná, professor da Universidade Federal da Bahia, a exposição aguda eleva os níveis de acetaldeído no organismo. “Toda vez que você faz uma ingestão alcoólica, você encharca mais o fígado de acetaldeído – um pró-inflamatório e um pró-fibrogênico – que pode aumentar a deposição de fibrose, cicatrizes no fígado. Isso faz o indivíduo evoluir para cirrose hepática e aumenta a inflamação que também estimula a fibrose”, explica o especialista. Além das lesões diretas, o álcool interfere no sistema imunológico e altera o perfil lipídico, elevando triglicerídeos e o colesterol ruim.

Publicidade

Estatísticas indicam que a incidência de doenças hepáticas relacionadas ao álcool dobrou nas últimas duas décadas, impulsionada por mudanças de hábitos e pelo crescimento de comorbidades como obesidade e diabetes tipo 2. O estudo reforça que pacientes com síndrome metabólica possuem uma vulnerabilidade maior, pois o fígado já se encontra sob estresse prévio. A orientação médica para quem possui diagnóstico de gordura no fígado é a redução drástica ou interrupção total do consumo, uma vez que não há evidências científicas de uma dose mínima que seja considerada totalmente segura para este grupo específico de risco.

Possibilidade de reversão e cuidados na abstinência

Apesar dos riscos elevados, evidências internacionais trazem perspectivas positivas para aqueles que optam pela interrupção do consumo. Um estudo realizado com 633 pacientes em centros da Europa e Ásia demonstrou que a abstinência completa pode permitir a recuperação funcional do órgão em até um terço dos casos, mesmo em estágios de cirrose avançada. Contudo, especialistas alertam que pessoas com dependência química devem buscar auxílio médico ao decidirem parar, devido ao risco de síndrome de abstinência, que pode gerar palpitações e tremores. O suporte estruturado é fundamental para garantir que a interrupção seja segura e sustentável a longo prazo.

Publicidade

Artigos relacionados

Botão Voltar ao topo