Saúde & Bem-estar

Exame de sangue para depressão? Nova descoberta da USP revela como genes podem prever a saúde mental

Mapeamento genético realizado por cientistas brasileiros identifica 18 genes capazes de distinguir pacientes com transtorno depressivo maior.

Pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP) identificaram que determinados genes presentes no sangue podem sinalizar o nível de gravidade de um quadro emocional delicado no futuro. O estudo, publicado na revista científica Scientific Reports, revela que pessoas diagnosticadas com transtorno depressivo apresentam desregulações genéticas semelhantes tanto em neurônios quanto em glóbulos brancos. A descoberta reforça a compreensão da condição como um fenômeno sistêmico, que impacta o organismo de forma integrada, e abre caminho para a criação de exames laboratoriais capazes de detectar a patologia e sua severidade de maneira mais acessível que os métodos atuais.

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A investigação contou com o suporte da Fapesp e analisou dados de mais de 3 mil amostras sanguíneas oriundas de bancos de dados internacionais localizados nos Estados Unidos, França e Alemanha. Os cientistas observaram alterações na expressão de 1.383 genes nas células de defesa de pacientes com o transtorno. Desse total, 73 genes estão tradicionalmente ligados às sinapses cerebrais e à formação de conexões neurais. Segundo Otávio Cabral-Marques, professor da Faculdade de Medicina da USP e coordenador do projeto, “mapeamos essa rede de genes que dá a dinâmica de interação entre os sistemas imunológico e nervoso”.

Avanços no diagnóstico molecular e biomarcadores

O estudo de ciência de dados permitiu isolar 18 genes específicos que possibilitam diferenciar, com consistência, indivíduos saudáveis daqueles que possuem o transtorno. Como o tecido sanguíneo é consideravelmente mais fácil de ser coletado do que o tecido cerebral, esses indicadores biológicos surgem como uma alternativa promissora para o desenvolvimento de painéis de diagnóstico. A pesquisadora Anny Silva Adri, responsável pelo desenvolvimento do estudo em seu doutorado, explica que, embora os resultados ainda precisem de confirmações biológicas adicionais, eles oferecem indicadores sobre a presença e a intensidade da condição.

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A análise também sugere que a desregulação molecular não se restringe ao cérebro, afetando diversos órgãos e sistemas. Os mesmos genes associados ao transtorno depressivo demonstraram conexões com outras condições de saúde, como tensão emocional, hipertensão, doenças arteriais e inflamações cutâneas, a exemplo da psoríase. Além disso, o mapeamento indicou correlações com disfunções gastrointestinais e complicações vasculares. Essa característica sistêmica explica por que pacientes com quadros depressivos frequentemente manifestam sintomas físicos que vão além do sofrimento psíquico, como alterações no apetite e processos inflamatórios diversos.

Perspectivas para novos tratamentos e abordagens clínicas

A integração entre os sistemas imunológico e neurológico é um dos pontos centrais da pesquisa, que busca desconstruir a visão de que tais sistemas operam de forma isolada. Para os especialistas envolvidos, a conexão entre a inflamação detectada no sangue e os sintomas centrais no cérebro permite vislumbrar novas abordagens terapêuticas que foquem no controle da inflamação para mitigar os sintomas da doença. Conforme aponta Cabral-Marques, “a depressão é um fenômeno sistêmico, ou seja, que se espalha pelo corpo inteiro”, o que demanda estratégias de tratamento que considerem o impacto molecular em todo o corpo humano.

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