DNA CONVENIENTE: A CONSTRUÇÃO DO “POVO JUDEU” PELO SIONISMO
Crônica sobre a vida e o que podemor tirar dela
Gustavo Uchôas Guimarães
Professor de História em Elói Mendes, vive em Varginha. Historiador, escritor, pesquisador, poeta e um insaciável leitor e curioso.
Em publicação anterior – que pode ser lida em https://brasilhorahora.com.br/noticia/4657/opiniao/biblias-bombas-e-bandeiras-o-bbb-que-elimina-em-nome-de-deus-23032026 -, fiz uma desconstrução do argumento teológico que “justifica” a posição de Israel no mundo atual: ao contrário do que o movimento sionista cristão ensina desde o século XIX (e que influenciou o movimento sionista judeu), não há amparo que sustente (a não ser por “malabarismos” e distorções interpretativas) a ideia de que os cristãos devam aceitar a aplicação de promessas bíblicas ao atual Estado de Israel. O presente texto continua essa abordagem, mas sob outros aspectos (por exemplo, o antropológico).
Inegavelmente, o judaísmo – como religião e cultura1 – é uma grande força histórica. Os princípios judaicos, que beberam das tradições javistas do povo hebreu e também de tradições dos povos mesopotâmicos e dos persas2, deram base ao cristianismo, religião que moldou o mundo ocidental nos últimos 2000 anos. Além disso, grandes nomes da política, da ciência, da economia, da medicina, da psicologia e de outras áreas são – ou eram – judeus, refletindo em suas vidas os princípios do judaísmo (mesmo que para se posicionarem contrários a ele)3.
No século XIX, porém, autores sionistas europeus passaram a afirmar que os judeus, além de serem membros de uma religião, seriam também uma “raça”, o que justificaria a criação de um Estado judeu. Nesse sentido, temos a contribuição do alemão Moses Hess (1812-1875), em seu livro “Roma e Jerusalém: A última questão nacional” (1862), na qual ele fala de uma “raça judaica” – em um sentido de identidade nacional – que deveria se unir frente ao preconceito alemão. Assim, Hess transporta o judaísmo do campo religioso para o campo nacionalista. Isso influenciou o pensamento de Theodor Herzl, o “pai do sionismo judaico”, quando ele escreveu o livro “O Estado Judeu”, publicado em 1896 e que defendia a criação de um território independente para o povo judeu, que, segundo Herzl, é “um só povo” e precisava apenas de um Estado para viver sua nacionalidade distante do preconceito antissemita que se difundia na Europa. Outro sionista, Arthur Ruppin (1876-1943), ia mais longe e falava de uma “higiene racial” dos judeus, selecionando os mais fortes para formarem o Estado judeu que se pleiteava criar no Oriente Médio, pois, para ele, os judeus tinham uma singularidade biológica e precisavam manter a “pureza racial”. Ao longo do tempo, essas abordagens de autores sionistas criaram na mente das pessoas a ideia de que os judeus que tomavam posse de terras na Palestina, no século XX, eram descendentes diretos dos judeus que viviam na mesma região até o século I d.C. e foram derrotados pelos romanos após se revoltarem (Ruppin e Herzl, por exemplo, tratavam da criação do Estado judeu como um “retorno”, reforçando essa ideia de uma ligação biológica entre os judeus da Europa e os antigos judeus do Oriente Médio).
Um dos grandes trabalhos de desconstrução dessa visão sionista é o livro “A invenção do povo judeu” (2008), do historiador israelense Shlomo Sand. Na obra, Sand destaca que a maioria dos judeus da atualidade são descendentes de populações de fora de Israel e sustenta, com estudos, que a formação do “povo judeu” nos últimos 2000 anos se deve às conversões ao judaísmo por parte de grupos humanos espalhados pela Europa e norte da África. Segundo o autor, quando os judeus foram derrotados pelos romanos (70 d.C.), a maioria – especialmente os mais pobres – permaneceram na Palestina e, com o passar dos séculos, se misturaram a outros grupos étnicos, estando, inclusive, na base da formação dos palestinos. Ainda segundo Sand, a ideia de que todos os judeus foram expulsos da Palestina no século I d.C. foi um mito criado por escritores cristãos que queriam converter os judeus, associando a destruição de Jerusalém a um castigo divino por não terem os judeus acreditado em Jesus.
Além do livro de Shlomo Sand, há também estudos controversos, como os de Eran Elhaik (2013), que defende uma origem turca e caucasiana para judeus asquenazes (vindos da Europa Central e Oriental); esses estudos são controversos devido às críticas aos métodos do pesquisador.
Apesar disso, é legítimo discutir e se aprofundar na ideia de que o atual “povo judeu” é uma construção histórica que muito deve aos autores sionistas da virada do século XIX para o XX. A “racialização” dos judeus, atribuindo-lhes o caráter de um povo que “retorna” (portanto, ligado aos antigos judeus que se “foram”), é uma construção ideológica que não encontra respaldo completo sequer entre os próprios judeus. O grupo judeu Neturei Karta International, por exemplo, é contrário à criação do Estado de Israel por entender que o sionismo substituiu a Torá pelo nacionalismo; segundo o site do grupo, judaísmo e sionismo são contrários, os judeus ainda estão em exílio nesse mundo e esse exílio só terminará de forma milagrosa e divina (portanto, segundo o grupo, o sionismo seria uma desobediência a Deus).
Todas essas considerações sobre o sionismo devem ser objeto de reflexão e crítica por parte dos que se posicionam contrários às guerras no Oriente Médio, em especial as causadas pelos Estados Unidos e por Israel. No caso específico dos cristãos, ainda há que se destacar que o posicionamento contrário ao sionismo é um imperativo teológico, haja visto que a Igreja é o novo “Israel de Deus” (em Gálatas 3,28-29, Paulo afirma que os descendentes de Abraão são todos os que creem em Cristo, pois “não há judeu nem grego”, sendo todos “um só em Cristo Jesus”). Independente de ser cristão ou não, no entanto, é notável que o bom senso nos leve a enxergar as atrocidades dos “senhores do mundo” (seja o sionista que comanda Israel, seja o aiatolá ou o presidente estadunidense ou qualquer outro) e soltar a voz em defesa da paz.
1 Sob o nome de judaísmo, chamamos a estrutura cultural e religiosa que se forma a partir do Exílio na Babilônia (597-538 a.C.), quando a elite judaica é deportada pelo rei caldeu Nabucodonosor II e passa a viver na cidade de Babilônia.
Esse período de exílio foi o da redação final da Torá (a Lei de Moisés, cinco primeiros livros do Antigo Testamento). O
nome “judeu” se deve ao fato de que, após muitas invasões e deportações sofridas pelos hebreus, restou apenas a
tribo de Judá, uma das 12 tribos de Israel; embora, no Novo Testamento, a anciã Ana fosse da tribo de Aser – Lucas
2,36 – e o apóstolo Paulo fosse da tribo de Benjamin – Filipenses 3,5 -, eles são exceções em meio aos hebreus do
período pós-exílico, em que o “resto de Israel” (Isaías 10,20) era predominantemente da tribo de Judá (por isso, o nome “judeu”).
2 Uma pesquisa séria sobre a história do judaísmo traz, aos interessados, uma rica construção da cultura judaica com elementos dos antigos hebreus (o monoteísmo, com o culto de Iahweh), dos povos da Mesopotâmia (por exemplo, os relatos do dilúvio e a “lei do talião” – “Olho por olho, dente por dente”) e dos persas (por exemplo, o conceito de ressurreição e a crença na hierarquia de anjos). Esses elementos entraram na religião judaica aos poucos, na medida em que as crenças e a literatura do povo judeu eram construídas. Após o Exílio na Babilônia (597-538 a.C.), o judaísmo organizou seu corpo escriturístico (seu livro sagrado, que corresponde ao Antigo Testamento da Bíblia cristã) e ainda agregou novos conceitos (por exemplo, a ideia de ressurreição dos mortos aparece nos livros dos Macabeus, escritos no século II a.C.).
3 Sigmund Freud (1856-1939), por exemplo, era judeu e usou a tradição hermenêutica judaica (arte de interpretar textos e símbolos) como uma das bases para a psicanálise, embora, do ponto de vista religioso, ele fosse ateu.
Para saber mais:
– Moses Hess e o livro “Roma e Jerusalém” = https://www.zionismontheweb.org/Moses_Hess_Rome_and_Jerusalem.htm
– Evolução do sionismo = https://mppm-palestina.org/sites/default/files/ficheiros_anexos/eqp_2._ascensao_do_sionismo_2.pdf
– Theodor Herzl e o livro “O Estado Judeu” = https://israeled.org/theodor-herzl-a-questao-judia-o-estado-judeu-theodor-herzl-1896/
– Concepções raciais da identidade judaica no sionismo = https://en.wikipedia.org/wiki/Racial_conceptions_of_Jewish_identity_in_Zionism (ver as referências e as notas)
– Discussão sobre os estudos de Eran Elhaik = https://jewishreviewofbooks.com/articles/802/are-we-all-khazars-now/
– Declaração de Missão (Grupo Neturei Karta International) = https://nkusa.org/about-us/mission-statement/



