O lixo conta histórias de rotinas, imprevistos, agrados e desagrados eventuais.
O lixo sugere valores, fala de educação, ensina sobre o cuidar; o lixo revela partes do ser, fases da vida, celebração, doença, remorso. Em meio ao que foi recolhido, bingas de cigarro, papel higiênico, lacres e embalagens irreconhecíveis e intactas; vejo latinhas, potes, sacolas, fitas; em meio a tudo isso um termômetro, uma lâmpada danificada; uma pasta de papel azul desbotado com os elásticos frouxos; uma caixa de bombons cheia de papeizinhos embolados. Numa caixa à parte envelopes com longas cartas escritas à mão, cartões antigos, entre boletos e anúncios, papeis amassados, rasgados, de hoje e de tempos atrás.
De repente surge um saquinho com uma legenda em letras grandes: “CUIDADO! Vidro quebrado”; e num outro uma bisnaga qualquer repleta de algum líquido meio pastoso, gordurento e viscoso que contamina tudo o que dele se aproxima. Quem recolhe tudo isso, quem manipula esses vestígios de vida, ruínas de morte, restos de uma noite longa e feliz, símbolos da passagem do tempo, o que encontra, de fato, o que vê? Sente-se testemunha, cúmplice? Sente-se surpreso, decepcionado? Analisa tais fragmentos? Essas e tantas outras perguntas me ocorrem.
Perco-me a imaginar a variedade do que se descarta no mundo, que nem sempre é lixo. Afinal, o que é lixo pra mim nem sempre é para o outro. Como eu manipulo meu lixo, descarto tais evidências revela muito do que sou, do que uso em demasia ou só por capricho. Mas pode revelar também que sou atento, que busco a origem das coisas e me preocupo com seu destino final.
Os últimos dias do ano costumam ser repleto de festividades, ainda que reduzidas devido à pandemia (naquele ano). Observo o lixo a se multiplicar, teria vida própria? Exercito meu sentimento de gratidão a toda essa cadeia de pessoas que produz essa utilidade toda, ainda que nem sempre útil, mas que acredito necessária. Exercito o pensar em quem se preocupa em melhorar a vida da população com cada invento, com cada embalagem que sirva para “embalar”, cuidar e proteger. Embora nem sempre esteja claro o que protegem. Essas embalagens deveriam proteger o alimento, para me protegerem, certo? Mas me protegem, de fato, e a minha mãe Terra?
Depois que jogo fora algo na lixeira, por vezes tão limpo e cheiroso como a embalagem de um sabonete, eu me pergunto pra onde ela irá. A partir daquele momento ainda terá função, utilidade? Por quanto tempo? Tornar-se-á maligna? Para o bem ou para o mal, eu faço parte desse ciclo, do processo que inclui ser o público-alvo daquele produto, consumidor e cidadão responsável pelos meus atos.
Ter consciência desse fato deveria ser suficiente para mudar meus hábitos, repensá-los constantemente a fim de que possa contribuir no micro para, juntos, obtermos resultados no macro. Tudo isso o lixo me diz, mas se fosse o contrário e ele se pusesse a me analisar o que será que diria de mim?
Girlene Verly é escritora, poeta e dançaterapeuta nascida em Araruama, RJ, há anos morando no interior de Minas. É graduada, mestre em Letras pela UFSJ e doutora em Literatura Comparada pela UFMG. Já publicou em jornais, revistas literárias e antologias. Em 2023 lançou “O corpo sabe que é terça”, mas se distrai”, pela Editora Folheando e em 2024 “Dança de samambaias”, pela Editora Patuá. Instagram: @autora_verly




